(Tudo que está aqui, saiu do emaranhado de pensamentos conflituosos que permeiam a minha vida)
sábado, 9 de novembro de 2013
Tristeza
Eu me aproveito da tristeza pra poder viver. Aceito sua companhia em dias quentes,frios, solitários ou simplesmente vazios,mesmo que rodeado de gente. É como se ela gostasse da minha companhia também. Talvez por não desprezá-la,como muitos o fazem. Talvez ela também seja solitária e goste de vagar por entre os corações fúteis dos mortais, se regozijando com suas preocupações mesquinhas.
No meu caso é diferente, ela vem de vez em quando para me abraçar, trazendo consigo as dores do mundo,me transmitindo a revolta dos pequenos, a ganância excessiva dos poderosos, e talvez alguma doçura amargurada dos amantes.
A questão é que tive de aprender a lidar com ela, aprendi que não se luta contra ela,mas com ela, assim aprendi como agradá-la sem deixar morada. Então, hoje eu escrevo,no limiar entre o meu eu e a tristeza plena.
A tristeza é o contrabalanço da vida para as asas imaginárias que a felicidade nos dá. É o peso extra nos ombros dos mortais, o que os torna fortes e viris para as vicissitudes alheias à existência... Ela é parte importantíssima na construção do caráter.
Já a Mágoa, sua filha mais cruel, não se deve deixar nascer, pois já é filho do homem com a Tristeza.
Essa bela dama que me encontra aleatoriamente com suas vestimentas sortidas,eu a deixo entrar, para que a alma não azede como leite, para que não apodreça como maçãs da estação passada, eu a acolho, entendo. E a amo.
R.C.
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Opinião
Não me agrada esse empolamento todo,
que os poemistas fingem ser necessária para poetizar.
Não é.
Poema é alma.
É dor. É fel.
É amor.
É pênis. É vagina.
E gozo, muito gozo.
Gozo da vida, gozo da porra da dor.
E gozo de porra.
É tudo e apenas é
não precisa de palavra grande
não precisa nem falar de boca cheia
quando recitar
só precisa falar
não precisa fingir
só deixar o pensamento
a corrente da loucura seguir
afluir
Poema é.
Sem floreio grande
sem choro de instante
Poema é
até o que eu quiser que seja
mesmo que seja eu
falando de cerveja
OU
daquela mulher cor de jambo
caramelada que só ela
que me bambeia o mundo
todo dia de pagamento
Poema é,só é.
E tudo mais que a vida puder carregar.
Tudo mais o que a mulher puder carregar no bucho.
E tudo mais que o dicionário do poema simplista pode dizer.
Samuel Simples.
(R.C.)
que os poemistas fingem ser necessária para poetizar.
Não é.
Poema é alma.
É dor. É fel.
É amor.
É pênis. É vagina.
E gozo, muito gozo.
Gozo da vida, gozo da porra da dor.
E gozo de porra.
É tudo e apenas é
não precisa de palavra grande
não precisa nem falar de boca cheia
quando recitar
só precisa falar
não precisa fingir
só deixar o pensamento
a corrente da loucura seguir
afluir
Poema é.
Sem floreio grande
sem choro de instante
Poema é
até o que eu quiser que seja
mesmo que seja eu
falando de cerveja
OU
daquela mulher cor de jambo
caramelada que só ela
que me bambeia o mundo
todo dia de pagamento
Poema é,só é.
E tudo mais que a vida puder carregar.
Tudo mais o que a mulher puder carregar no bucho.
E tudo mais que o dicionário do poema simplista pode dizer.
Samuel Simples.
(R.C.)
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Reflexões de Felipe Falso
"Seguidamente sinto-me engolido pela massa, pela aglutinação de informação rasa, por muita gente rasa. Sim, todos esses rasos, não-profundos, ralos e sem cor. Iguais. Em forma de roupas produzidas em larga escala para estereótipos incutidos subliminarmente - todos vindo à tona quando piso na rua. Como se todos as palavras já ditas foram jogadas ao relento, o vento as levou para outros ares mais nobres, e eu fiquei aqui. Na submetrópole, subjugada e subnutrida de finalidade.
Somos um organismo vivo que tende a continuar cegamente no martírio diário, imposto pelo capital agressivo... E o alento? Ah... Deus salva e amortece tudo.
Entristeço, pois já não me dá esperança de continuar vivendo nesse meio-termo, nessa meia-vida, nessa limitação toda. Nessa rotulação excessiva. Nessa meia história já escrita.
Não há livre-arbítrio, apenas discricionariedade.
Acredito que as necessidades humanas são muito maiores e plurais do que apenas viver para ser número. Para ser rebanho e parte ínfima de um certo volume pra voto. Me recuso a fazer parte dessa farsa. Mesmo que pra isso tenha que ser recluso - o que até pra isso precisarei de dinheiro, portanto, terei que trabalhar n'um emprego que não gosto, com pessoas de alma pequena, de cabeça pequena e pior, de boca escancarada. Escarraria na cara de todos se pudesse.
Caso não venha a ser um recluso. Chegará um dia em que meus porres não mais aliviarão, que a maconha não mais me tornará mais leve. Um dia em que os livros que li me farão explodir a cabeça tranquilamente, sabendo que independente de onde vá, serei mais livre do que aqui, pois já sei que não há mais nada lá fora para mim.
Essa é a meta. Viver, reter, repassar, aprender até cansar, e quando cansar, partir. Sem hora-extra."
R.C.
Somos um organismo vivo que tende a continuar cegamente no martírio diário, imposto pelo capital agressivo... E o alento? Ah... Deus salva e amortece tudo.
Entristeço, pois já não me dá esperança de continuar vivendo nesse meio-termo, nessa meia-vida, nessa limitação toda. Nessa rotulação excessiva. Nessa meia história já escrita.
Não há livre-arbítrio, apenas discricionariedade.
Acredito que as necessidades humanas são muito maiores e plurais do que apenas viver para ser número. Para ser rebanho e parte ínfima de um certo volume pra voto. Me recuso a fazer parte dessa farsa. Mesmo que pra isso tenha que ser recluso - o que até pra isso precisarei de dinheiro, portanto, terei que trabalhar n'um emprego que não gosto, com pessoas de alma pequena, de cabeça pequena e pior, de boca escancarada. Escarraria na cara de todos se pudesse.
Caso não venha a ser um recluso. Chegará um dia em que meus porres não mais aliviarão, que a maconha não mais me tornará mais leve. Um dia em que os livros que li me farão explodir a cabeça tranquilamente, sabendo que independente de onde vá, serei mais livre do que aqui, pois já sei que não há mais nada lá fora para mim.
Essa é a meta. Viver, reter, repassar, aprender até cansar, e quando cansar, partir. Sem hora-extra."
R.C.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Carta para uma futura poeira
De nós só restará a velha casa - com nosso quarto (que pintamos logo que mudamos), o túmulo do gato amado. Nossa gigante coleção de livros, nossos inúmeros filmes - nosso prazer escondido em palavras e cenas , meus ternos empoeirados - que há muito já não uso, suas blusas e tecidos - me encantam esses tantos que são. Só restarão nossos porta-retratos cheios de memórias preciosas, nossos álbuns com o recheio de uma vida toda - podendo ser apreciado milhares de vezes pelos que deixamos por aqui, e também restará esta carta.
Que fiz somente para sentir a beleza do abraço final.
Visto que seremos pó logo que nossos corpos puídos e levemente putrefatos entrarem no forno, agradeço desde já por onde me jogarem, quiçá um lugar belo, como as praias desse nosso Brasil, talvez, não sei. Era só uma sugestão, para nossos filhos fica então a tarefa de nos entreter as cinzas, fazendo presenciar a paisagem mais bela que nossos olhos não conseguiram fitar. É, nessa vida dá pra se ver muita coisa...
E eu te vi. Isso me bastou, todo esse comum foi prazeroso demais só por te ver acordar, tu foi sorriso, me valeu a razão de viver. E agradeço que eu te vi... quem sabe não nos revejamos?
de teu amado ontem,hoje,
no fim sem nome, enfim,
Pó.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Uma ode ao arfar
A escuridão é uma das delícias do pecado
é nela , que boquetes impressionantes
sejam no escuro da balada
É nela, que os garotos de olhos vermelhos
se refugiam em toda madrugada
pois hipocrisia reina na sociedade-desespero
- Um adendo aqui pois são de maioria, desesperados, correndo depressa pra suas medíocres e egocêntricas vidas, onde doação não dá fé e sim azia.
É nela, que enfim,
os amantes iniciantes se refugiam
o primeiro orgasmo ninguém esquece
É ela também, que dá asas à fuga premeditada,
que os mesquinhos e azedos, se permitem em ciclos usuais
afinal todos romperam ao menos uma vez, a moral imposta.
Talvez uma ode não apenas à escuridão
mas ao arfar num ouvido doce, e talvez,
à todo esse bacanal velado
que seja, é bela e poética,
encantadora, essa loucura nua
e escura...
R.C
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Fiz
Fiz da mente,
o acurado maquinário das certezas
incerto de saber de tudo, decidido
mesmo cometendo faltas
Fiz do coração,
o mais belo espelho da mente
engrandecendo de beleza,
o que restasse de nobre em mim
Fiz da língua,
haste rebelde de verdades ácidas
e agente de pequenas explosões,
dessas que bambeiam pernas
E por fim fiz do todo
um misto caótico do começo e meio
sem fim
enfim
que seja, sem medo não se vive
e sem aprendizado a mesquinhez oprime
Então sente ,
agora, meu eu
ressuscita da tua alcova mal cavada
abre os baús da alma
vulgo caixa de pandora do teu eu
sofre e opere mudança
voa de supetão
mostra que é fundada a esperança
sorria, coração!
e
vai,
e não olha,
não pra trás...
o acurado maquinário das certezas
incerto de saber de tudo, decidido
mesmo cometendo faltas
Fiz do coração,
o mais belo espelho da mente
engrandecendo de beleza,
o que restasse de nobre em mim
Fiz da língua,
haste rebelde de verdades ácidas
e agente de pequenas explosões,
dessas que bambeiam pernas
E por fim fiz do todo
um misto caótico do começo e meio
sem fim
enfim
que seja, sem medo não se vive
e sem aprendizado a mesquinhez oprime
Então sente ,
agora, meu eu
ressuscita da tua alcova mal cavada
abre os baús da alma
vulgo caixa de pandora do teu eu
sofre e opere mudança
voa de supetão
mostra que é fundada a esperança
sorria, coração!
e
vai,
e não olha,
não pra trás...
Ressurja,então.
Do poço repleto de tristezas
tirei meu coração, ou o que
me sobrou do viver,
vou ensiná-lo a se localizar
no atual momento,
fazer escolhas, no certo tempo,
sem fazer tolo, o seu papel
E que siga batendo, rápido
se exigido nas farras necessárias
devagar, se tiver que estar,
que seja, saudável.
Quero saúde
pra sentimento que prospere no vazio.
R.C.
tirei meu coração, ou o que
me sobrou do viver,
vou ensiná-lo a se localizar
no atual momento,
fazer escolhas, no certo tempo,
sem fazer tolo, o seu papel
E que siga batendo, rápido
se exigido nas farras necessárias
devagar, se tiver que estar,
que seja, saudável.
Quero saúde
pra sentimento que prospere no vazio.
R.C.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Ah! O verão...
Ah! O verão...
arfante de suspiros saudosistas
lembro-me dos mais áureos dias de sol
dos beijos mais leves,
desses que levam o gosto de fel do inverno embora
Ah! o verão...
inúmeros corpos marcados por essas paixões
seja por lembrança ou cicatrizes de arranhões
a carne implora, clama por chama de prazer
nesse tempo não interessa á ninguém deixar de fazer...
Ah! o verão...
de inúmeras trilhas sonoras foi embalado
marcantes bebedeiras e conversas a fins...
com pés de areia e corpos febris, enfim...
Ah! Verão... todo ano te espero chegar, manso
sabendo que já me reservas turbilhão,
deveras ansioso...
Ah! Verão...
sem sua poesia diária, o que seria de mim?
Seria de inverno e melancolia, repleto
sem você não me exilaria d'alma , decerto,
aproveitando toda a chama que há
como que num decreto,
"O verão é pra se usar".
Clareza
Já falei pra meu botão
que cheiro de rosas no ar tem mais não,
embora nas noites dolorosas
o peito incha de remorso e intrínseco desespero...
Raro é o dia que o sol me ajuda a seguir
a estrela da luz plena, é um lembrete sádico
de doações hoje já revogadas,
por outrem, também não aceitas
Raro é o dia em que a lua me cria lembrança
repentinamente aproveitar o escárnio da vida
é uma opção,
então...
Resigna, desejo
que de vez em quando é bom
aproveitar o ensejo
e bater palmas pro destino.
Ah! O pseudoamor...
- E o que você queria me dizer?
- Que é perturbadora essa falta toda que eu sinto de você.
- Mas não seria a pele clamando, apenas?
- Parece que é mais que isso, quando você fecha a porta, o dia anoitece de repente.
- Mas ainda assim, poderia ser apenas o desejo resignando.
- Resignando e perdendo a cor? Você é mais do que desejo, é ódio. Eu odeio te querer tanto.
- Então me odeie, mas não me deixe.
- Não dá, o desejo cessa mas a chama não abrasa. Pode ficar tranquila que de desamor eu não padeço...
- Não padece mais pode padecer um dia.
- Eu reciclaria meu ódio pra transformar em amor, só pra não perder tua pele nos meus dias, e fim. Dê crédito ao que não se vê mudança, é firme; pode não ser amor. Mas é mais que desejo...
Joana
Pequena garota de olhos verdes sempre avermelhados
exaurida de pensar demais em certas vertentes
fala mansa como quem criou-se no interior
calma como quem só quer os pequenos momentos
Quase sempre compacta e sem muita substância
é quase etérea em sua essência
de súbito gosto de parar e observar
o quão grande, perante você, é minha ignorância
e com esse
sorriso inocente de gente ainda não corrompida, decente
essa menina vem trazendo o bem que estava ausente
não sei se vai ficar e se fazer presente
lhe conhecer
me fez me entender e expandir a mente
quero sua companhia,
prefiro que fique e se faça sempre...
Tirano retrato.
Engulo seco se escolhi
seguir as ditaduras silenciosas
do meu pensamento, ali
algumas maldosas
argutamente tendenciosas
como que desculpas pra entorpecer meu eu
segui de praxe as ruas esburacadas da razão
já minadas pela torrente de desconjunção
que se dá quando falta malandragem pra por o pé no chão...
R.C.
seguir as ditaduras silenciosas
do meu pensamento, ali
algumas maldosas
argutamente tendenciosas
como que desculpas pra entorpecer meu eu
segui de praxe as ruas esburacadas da razão
já minadas pela torrente de desconjunção
que se dá quando falta malandragem pra por o pé no chão...
R.C.
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Versos
Todos os versos meus
unidos em uníssono
são gritos do meu eu,
o clamor do homem-menino
São as mães
de toda a definição da psique
a última barreira
meus rótulos, meus cabrestos
São cheios de sentimento nu,
como pequenas crianças, crus
puros, sem a malícia do mundo
ah! esse sim é belo e deturpado...
Meu maravilhoso parque de diversões
semanalmente redescoberto
incessante nas verossímeis ilusões
ainda assim, deixa o silêncio de deserto
Na noite fria, o peito à mostra
o verso cria mundo de gosto e cheiro novo
sem fel, acre, ou cheiro de fossa
tudo refeito e docemente imaginado
no verso do semblante resignado.
Oriundo de inspiração diurna
pedaços pirados produtores de piração
liberdade para a alma sombria
soltando suas mazelas à luz do dia
Cru e nu, meu verso é belo mesmo sem querer
todos aqueles que de mim vem, são pra você
outro olho que lê, talvez tenha um pouco de mim
na ponta do grafite natural
Caricatura da vida real
o verso é frente vanguardista usual
afinal, todo poeta é só o veículo do pensamento universal
cru e nu
meu verso é belo mesmo sem querer
talvez tenha um pouco de mim
em você
afinal,
onde termina o "nós" e começa o "você"?
pedaços pirados produtores de piração
liberdade para a alma sombria
soltando suas mazelas à luz do dia
Cru e nu, meu verso é belo mesmo sem querer
todos aqueles que de mim vem, são pra você
outro olho que lê, talvez tenha um pouco de mim
na ponta do grafite natural
Caricatura da vida real
o verso é frente vanguardista usual
afinal, todo poeta é só o veículo do pensamento universal
cru e nu
meu verso é belo mesmo sem querer
talvez tenha um pouco de mim
em você
afinal,
onde termina o "nós" e começa o "você"?
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Imagem amada
você é o esboço da felicidade
nas horas em que a vida desfia em agonia
você é a letra que preenche a palavra vazia
é o conjunto das loucuras românticas
da vida vivida à dois
você é, das minhas
a mais instigante e louca
É o que me prende de domingo a domingo
é com quem eu vejo a tevê na noite gelada
você é o começo da vida sonhada
você é o que toma de assalto o pensar
você é tudo o que eu tenho pra amar
- quem ?
- não sei, amarei enquanto a esperar.
nas horas em que a vida desfia em agonia
você é a letra que preenche a palavra vazia
é o conjunto das loucuras românticas
da vida vivida à dois
você é, das minhas
a mais instigante e louca
É o que me prende de domingo a domingo
é com quem eu vejo a tevê na noite gelada
você é o começo da vida sonhada
você é o que toma de assalto o pensar
você é tudo o que eu tenho pra amar
- quem ?
- não sei, amarei enquanto a esperar.
Ciclo
Só mais um trago
só mais uma cerveja
só mais um efêmero afago
Só mais uma noite
sem que ninguém saiba onde eu esteja
Só mais uma manhã ressacada
Só mais umas horas desperdiçadas
Só mais um pouco...
Amanhã me levanto pra sair
de mansinho
Sem pistas pra deixar
sem desculpas, sem mentir
sem cartas pra impressionar
somente fecho a porta
tenho que ir
vou colocar tudo no lugar.
(e não vou voltar)
só mais uma cerveja
só mais um efêmero afago
Só mais uma noite
sem que ninguém saiba onde eu esteja
Só mais uma manhã ressacada
Só mais umas horas desperdiçadas
Só mais um pouco...
Amanhã me levanto pra sair
de mansinho
Sem pistas pra deixar
sem desculpas, sem mentir
sem cartas pra impressionar
somente fecho a porta
tenho que ir
vou colocar tudo no lugar.
(e não vou voltar)
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
(A)Ilusão
Sou habitante da metrópole da exclusão
repleta de cimento e aço
como que veias para o coração
são as estradas nesse espaço
É pulsante de tristeza coletiva
vejo olhos estranhos verdes e amarelos
o que incentiva a torrente pensativa
ao observar o amontoado de frágeis felinos
Que se perdem nessa selva
sem sol, sal ou mar
imaginando o desfrute de uma bela vulva
nos coletivos que fazem alienar.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Rodrigo, o resignado - II
Filharada corre pela casa
e a mãe está atrás
andando calma, tudo é paz
- Cheguei, amor
Ele vai na sala
pega um cobertor e senta
está acostumado com o tapete
e com o frio
É alguém que aceitou o vazio
vestiu as máscaras analgésicas
que prendem hoje, sua mácula
como n'um curativo fixo
ele não reclama
algumas pessoas são felizes
ele também, mas sabe
que anos atrás
abriu mão, não soube enxergar
no meio da ilusão, a deixou partir
sem mesmo pedir, a sua mão
Entretanto
é um homem de sonhos realizados
resignado
ele vive sorrindo
mas não pelos usuais motivos
aceitou, transcendeu
Internou-se em si mesmo, realizou-se
Viveu a vida, viu seus sonhos na frente dele
e os vê, todo dia correndo pela casa.
Encontrou
enfim
paz.
domingo, 25 de agosto de 2013
Flores
É triste
saber que a flor
cura tuas dores
mas acentua
tuas mazelas
É duro
saber que a flor
é pura
imaculada
e você
Deturpado,
exagerado
- insanamente quebrado
por todos os lados
de todas as formas
É difícil
tirar a flor da mão
e plantar no chão
pois ali
é o lugar da sua evolução
É complicado
aceitar que a flor
não te pertence
ela só lhe foi cedida
pelo coração da natureza
e você,
não pode lhe dar o carinho merecido
pois o teu egocentrismo te degola
e a vida, ah amigo, ela cobra.
Não deixe
de dar carinho pra tua flor
porque andar de mãos nuas
e limpas,sem terra, pela rua
não deve ser chamado de normal
e sim de solidão, tristeza,banalização;
Acure para que ache
uma flor que não só mereça carinho
mas também uma vida ao teu lado
pra fazer florescer amor.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Fel cru
Esse tal fel, que dá seu gosto nas madrugadas que enregelam a alma, tornando-a mais fria do que já era. Tempera a vida que já tinha gosto de mesmice, antes a amargura que dá de presente a reflexão, do que o doce sabor da alegria que tira a atenção. Os homens devem ser amargos em seu âmago, não podem se dar ao luxo de perder sua vida pela doce ilusão de ser feliz, essa palavra quase que mítica, criada apenas para servir de alusão para o que não alcançaremos. Antes só do que frustrado.
Não falo isso com arrependimento ou rancor, apenas consegui clarear a minha visão, me despindo dos contos de fadas de nossa criação. Estamos sós, o tempo dos cavaleiros de armadura reluzente já passou. Hoje é sexo sistemático pra tirar a fome do corpo, o resto é chateação pra quem continuar no sonho sonhado por outrem.
Não falo isso com arrependimento ou rancor, apenas consegui clarear a minha visão, me despindo dos contos de fadas de nossa criação. Estamos sós, o tempo dos cavaleiros de armadura reluzente já passou. Hoje é sexo sistemático pra tirar a fome do corpo, o resto é chateação pra quem continuar no sonho sonhado por outrem.
sábado, 10 de agosto de 2013
Confissão
E beba,
porque é mais fácil assim,
você se esquece do vazio abismal que há em ti.
Fácil porém doloroso,
crises de consciência são tormentos,
devaneios intensamente infelizes.
Apenas, beba um gole do teu veneno
terça-feira, 6 de agosto de 2013
(Re)construção
Reconstruí o relógio
remontei o filho pródigo
não retornou
não tem casa
tem a si
tem sua mão
tem seu corpo e coração
tem um puto no bolso
uma puta no carro
desiste.
desce a puta
sai o puto
Docemente insiste
a seus impulsos infernais
resiste
pensa e conclui
hora de mudar.
reconstruiu o relógio
consultou o mapa
mudou a rota
arrota, gosto de cerveja
na rua da vida
tantas senhoras de suprema beleza
lembranças são boas para baús.
O mundo não parou de girar
chega de reconstruir relógio
hora de reprogramar.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Natália Nicotina
me leva de madrugada
ao sereno pra me dar vida
teu triste vestido branco
e tua boca de algodão
me envelhecem
me esfola a garganta
maltrata o pulmão
queria tua presença pra sempre
infelizmente
um dia terei de te deixar na mão
insuficiência não é uma opção
é um aviso, moça escarlate
talvez, antes disso
a causa mortis seja o coração mordido
teu filtro vermelho é um aviso
mas já assumimos um compromisso.
És vício.
sábado, 3 de agosto de 2013
Gosto
Acho que escrevo
De pirraça, pra ver o contraste,
pra acender a chama no peito de alguém
pra ver o grafite manchar e ficar
ou o sangue da caneta verter
só pra macular a pureza branca do papel
gosto do emaranhado mental
do que fica e do que vai
e do que fica em cima do muro
sem saber se sai
das opiniões diversas se juntando
de tudo que é parecido se afastando
e de toda minha tenra vida digo só isso:
Eu gosto é da mudança
do diferente
do caos.
De pirraça, pra ver o contraste,
pra acender a chama no peito de alguém
pra ver o grafite manchar e ficar
ou o sangue da caneta verter
só pra macular a pureza branca do papel
gosto do emaranhado mental
do que fica e do que vai
e do que fica em cima do muro
sem saber se sai
das opiniões diversas se juntando
de tudo que é parecido se afastando
e de toda minha tenra vida digo só isso:
Eu gosto é da mudança
do diferente
do caos.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Odeio estrangeirismo
tem gosto de outro lugar
odeio arcaísmo
é muito rebuscado
odeio neologismo
pelo simples motivo
de que não tenho
licença poética para
(ab)usa-lo
gosto do que me vem
da palavra certa que acerta
da que escreve e descreve
o que aconteceu, com precisão
saindo na mão, teclado ou canetão
de qualquer forma
sigo procurando a palavra nova
que me marque , me molde
me diga que o mundo é mais do que
um monte de palavra chutando a outra
por um lugar á olhos de sol
Lia
Ela observa o mundo, da janela gradeada de seu quarto, como se nada importasse. Lá fora não tem nada pra ela, apenas dor, sofrimento e sol. Esse mesmo que traz a vida e desgraça as vidas do sertão. Sem graça, o dia nublado de hoje a faz ter vontade de fumar. E fuma, da janela gradeada, observando enquanto a vida passa. Não é acomodada, gosta de entender o que se passa lá fora. Mas se iludir com promessas e se encaixar nos padrões nunca foi sua vontade, ficar em casa a faz ter paz. Suas plantas, árvores frutíferas e animais, o seu limite é o limite do terreno, os muros, o portão. Ela é audaciosamente fora dos padrões, vazia na medida em que permitem seus livros cheios de paixão imaginada.
Infelizmente para Lia, não dá pra ficar em casa e ainda sim poder comer, fumar e se embriagar ocasionalmente; então recobra o senso de responsabilidade ridículo que sua mãe incutiu nela e sai de casa para distribuir alguns currículos. Já na rua, se depara com uma discussão entre um freguês insatisfeito de um fast-food e um gerente complacente e compreensivo. O tal do cliente estava chateado porque seu sanduíche não havia vindo de acordo com seu pedido, mas o escândalo que o sujeito fazia - e o nojo que Lia sentiu dessa atitude mesquinha - a fez ficar com vontade de fazer o caminho inverso e voltar pra casa, pros seus animais e suas plantas.
Foi o que fez, Lia voltou pra casa e começou a fazer a única coisa que o mundo permite para uma pessoa solitária e introspectiva; virou escritora, vendeu,endinheirou-se, embrenhou-se no seu lar e voltou a sorrir. E até hoje Lia volta no fast-food nos tempos em que o dinheiro é pouco, para se lembrar do porquê resolveu se isolar. Pessoas são babacas, e animais e palavras são melhores para se ter e receber carinho. Além do mais , ela percebia que as plantas lhe davam sim, carinho, ao compartilhar com ela toda sua beleza, só com ela, que cuidou e regou-as com tanto zelo. Lia é sorridente - de sorriso amarelo, é feliz, é só, e ao menos não trabalha no M amarelo.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Ausência
Não me faço necessário em muitos lugares
visto que só observo
sendo que nada me é dado
vou pegando o que posso, quando posso
cada sorriso, cada sabor, cada gota de saudoso ardor
e vou construindo um muro de lamentações em mim
minhas, dos outros, delas - todos nos lamentamos
mas todo mundo quer um final feliz
exceto eu, eu só quero aproveitar enquanto posso
transar tudo que posso, beijar e sentir
quero sentir, sensações! É isso que nos leva
pra frente, pra trás, pros lados - desviando do caminho traçado
Eu me transmuto pra isso sem perder essência
saio do caminho sem decretar ausência
sei que logo volto - meio trôpego talvez
mas essa sensação é o que me atrai toda vez
Talvez atraia a todos e eu também nem sei
mas enfim
Me espera, rota traçada, te trago um vinho pra esquentar a viagem-vida.
visto que só observo
sendo que nada me é dado
vou pegando o que posso, quando posso
cada sorriso, cada sabor, cada gota de saudoso ardor
e vou construindo um muro de lamentações em mim
minhas, dos outros, delas - todos nos lamentamos
mas todo mundo quer um final feliz
exceto eu, eu só quero aproveitar enquanto posso
transar tudo que posso, beijar e sentir
quero sentir, sensações! É isso que nos leva
pra frente, pra trás, pros lados - desviando do caminho traçado
Eu me transmuto pra isso sem perder essência
saio do caminho sem decretar ausência
sei que logo volto - meio trôpego talvez
mas essa sensação é o que me atrai toda vez
Talvez atraia a todos e eu também nem sei
mas enfim
Me espera, rota traçada, te trago um vinho pra esquentar a viagem-vida.
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Um pouco
Nunca tive papel ou folha almaço
a minha poesia eu mesmo faço
de vivência em vida
de imaginação e fantasia
de pedaços do dia-a-dia
de vistas que o mundo me cria
sou tudo isso e um pouco mais
enjaulado num sorriso fugaz e amarelado.
a minha poesia eu mesmo faço
de vivência em vida
de imaginação e fantasia
de pedaços do dia-a-dia
de vistas que o mundo me cria
sou tudo isso e um pouco mais
enjaulado num sorriso fugaz e amarelado.
Vivo
E eu gosto
de ir até a conveniência
(nome sugestivo pra tal lugar)
no começo da madrugada
só pra sentir o ar gelado na cara
comprar cigarros
- dar uma tragada ao relento
simplesmente para me sentir vivo
- frio, calor
são as sensações mais primitivas
assim como medo e euforia
essas sim me atraem
só para mudar um pouco as coisas
é bom sentir o frio enregelando os ossos
é bom quebrar um pouco as regras
é bom
só pra sentir a adrenalina
só pra se sentir vivo.
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terça-feira, 25 de junho de 2013
O meu amor
Meu amor é calado e rápido, vem e vai com a velocidade de uma bala de revólver. É, é bem isso o que ele é, bala, que perfura meu peito e vai entrando sem pedir autorização, sem querer saber se estou preparado, se minha vida está pronta pra o turbilhão que é o amor. Ele vem. Só, é um pouco mal-educado, eu admito, mas não o recrimino. Eu o agradeço, não o deixaria entrar se ele pedisse por isso, perderia a graça. Seria previsível.
Ele também é insano, desmedido, louco de pedra. Daqueles amores que tem rompantes, que não consegue se segurar dentro do peito que habita, percorre todas as camadas da pele e passa pelo corpo todo, faz da minha boca um mar de belas palavras e de minhas mãos, ferramentas de fazer sorrisos aparecerem. Das minhas pernas eu nem falo. Ele me move pra qualquer lugar. Qualquer lugar mesmo. Fico feliz de nunca ter me apaixonado por alguém que mora do outro lado do mundo, isso seria difícil de lidar.
Meu amor é possessivo, não cheio de ciúmes, não. Ele é leve quando se trata de ciúmes, hoje. Ele é possessivo porque quer estar sempre junto, quer compartilhar, quer entender, quer ouvir, quer se encantar, quer gostar de gostar tanto de alguém, quer ver sorrisos. Quer beijar boca com sorriso bobo. Quer sorrir bobo. Quer pertencer. Quer ser possuído e possuir, quer ser um. Quer casar objetivos e ser digno de um roteiro de cinema, porque esse amor quer perdurar, quer fazer alguém feliz pela vida inteira. Inteira, não meia vida, mas se for uma meia vida feliz também já vale.
Meu amor quer pertencer. Eu quero pertencer. Meu amor quer ficar. Eu vou deixar que ele fique, sem resistência, até com um pouco de condescendência. Dessa vez vou deixar ele ficar de verdade, sem amarras. Vamos ver no que vai dar, afinal, só ganha a vida quem se arrisca, quem dá a cara a tapa. E no amor não seria diferente, o problema é que o tapa é na alma; mas não tem problema, porque o amor que eu tenho não vai cobrar, caso cobre, é somente o que ele deu. Não uma relação de troca, não. Não um escambo sentimental, não. Cobrar o não cobrar, ele deu o que quis e vai receber o que é merecido. Esse é o amor que me pertence, esse é o amor que eu quero fazer pertença de alguém. Eu pertenço a ele e ele à mim.
Adeus
Não que seja um adeus
que seja um até logo
não que seja paixão findada
que seja amor guardado
Não que sejamos amargos e destruídos
que estejamos conosco tranquilos
Não que sejamos sonhadores iludidos
que sejamos exceções nesta geração de perdidos
não que sejamos infelizes longe de nós
que nos contentemos com um até logo, poderia ser adeus.
que seja um até logo
não que seja paixão findada
que seja amor guardado
Não que sejamos amargos e destruídos
que estejamos conosco tranquilos
Não que sejamos sonhadores iludidos
que sejamos exceções nesta geração de perdidos
não que sejamos infelizes longe de nós
que nos contentemos com um até logo, poderia ser adeus.
Arte
Quando a vida oprime
a arte se faz presente
quebrando a rotina de regime
como bálsamo, outrora ausente
Exprime dores, amores e fé
como parte que é
A expressão usual não é a questão
pelo qual o belo retrato é feito em meio a multidão
entretanto, é a arte que permite ao homem tirar os pés do chão
mas quem não faz arte
se regozija, com criações de outrém
sendo isso bom, arte cura também
arte é o carvão que move o trem.
a arte se faz presente
quebrando a rotina de regime
como bálsamo, outrora ausente
Exprime dores, amores e fé
como parte que é
A expressão usual não é a questão
pelo qual o belo retrato é feito em meio a multidão
entretanto, é a arte que permite ao homem tirar os pés do chão
mas quem não faz arte
se regozija, com criações de outrém
sendo isso bom, arte cura também
arte é o carvão que move o trem.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Luíza
As cores perderam seu calor
se tornaram frias conforme perdemos o ardor
o cinza agora me toma de sopro
como o vento que preenche o oco
o vazio que preenche ou deixa de preencher
O que pertenceu outrora é lembrança sépia
de sorriso em negativo, pois agora seus dentes são pretos
enegrecidos pela morte branda que tomou seu brilho
te vejo ao longe como um pequeno e gracioso cadáver
de uma beleza extrema, porém sem vida, triste, findada
Como uma flor de primavera, no outono perdida
como água suja maculada pela tinta
hoje és filha de renascimento no cosmos , beleza oculta
mas esse cinza que veio é sim a mudança de olhar, sem mais amar
cheio de significados e também com nenhum, te olho morta-viva, viva!
se tornaram frias conforme perdemos o ardor
o cinza agora me toma de sopro
como o vento que preenche o oco
o vazio que preenche ou deixa de preencher
O que pertenceu outrora é lembrança sépia
de sorriso em negativo, pois agora seus dentes são pretos
enegrecidos pela morte branda que tomou seu brilho
te vejo ao longe como um pequeno e gracioso cadáver
de uma beleza extrema, porém sem vida, triste, findada
Como uma flor de primavera, no outono perdida
como água suja maculada pela tinta
hoje és filha de renascimento no cosmos , beleza oculta
mas esse cinza que veio é sim a mudança de olhar, sem mais amar
cheio de significados e também com nenhum, te olho morta-viva, viva!
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segunda-feira, 20 de maio de 2013
Excerto de pensamento
Faces lisonjeiras de beleza mórbida, andando por aí e não sabendo aonde ir, onde fazer posto, algumas por desilusão, escorrem lágrimas no rosto, mas ainda sim, seguem a vida como se devesse assim ser, senso comum, vida comum, tristeza incomum, melancolia de vida pautada no um.
Rodrigo, o resignado. - 1
Rodrigo era normal, estranhamente normal, tratava à todos com a polidez de um lorde, a educação de um padre, e tinha pelo entorno um carinho maternal. Sua vida era pautada em bons modos, boas pessoas. Rodrigo era um modelo, um padrão a ser seguido.
Seus filhos eram orgulhosos - de uma maneira saudável - e patriotas, típicos garotos de classe média alta, dois carinhas interessantemente estranhos, talvez até um pouco revoltados, mas a jovialidade inerente à eles era assim associada à rebeldia, Rodrigo se resignava. Um cristão de fé e um ótimo observador, esperar e aceitar era sábio. Orientar também.
Rodrigo era constante, não se deixava estressar, nem quando seu fatigante trabalho como gerente de banco exigia dele, todas as suas forças. Nem quando a noite caía e sua mulher tinha uma súbita dor de cabeça. Resignava-se. Sua constância rotineira o deixava relaxado, era automático, sua vida era era repleta de máscaras. Mas ainda assim, resignava-se.
Um belo dia, o exemplo da comunidade, o amigo de todos, aquele vizinho que lava o carro religiosamente aos domingos, resolveu mudar. Terminou seu expediente mais cedo, comprou um bouquet de flores para sua mulher e uns doces para os filhos, além do pão usual. Comprou pra si uma nova camisa, florida, diferente. Rodrigo, o resignado, estava mudando.
Uma carta de outrora
"Nunca te falei com todas as palavras que conheço o quão encantador o teu sorriso é, como sua risada me deixa alheio à tudo que me pertence - parcimônia, batimento cardíaco, frieza, tudo isso se vai. E nem cheguei nos teus olhos, ainda me sinto aquele mesmo garoto que você conheceu, que te olhava de longe e te chamava de louca, que ria e achava você estranha por suas atitudes controversas, você continua sendo tudo isso. Louca, estranha, controversa. Mas ainda assim, instigante.
Fácil de se gostar e difícil de se lidar.
Sei de que de várias formas eu não te compreendo, sei que esse 'caso' antigo é complicado demais, sei que talvez suas intenções não sejam as mesmas que as minhas, sei de tudo isso.
Mas também sei que se não tentar, vou me arrepender. Se não me embrenhar em você, não vou nem chegar perto de te entender - nem sei se quero entender.
Não quero ver lágrima no teu olho, não mais. Não quero só ser um ombro, não mais. Sei que sou mais que isso, que posso ser mais que isso. Só queria que se livrasse desse horror que tem do entregar-se.
Queria dizer que te aceito exatamente como você é, crispando os lábios quando está de alguma forma desgostosa, olhando para o outro lado para evitar contato visual, e também a sua forma única de pedir desculpas, que nem de palavras necessita, simplesmente um olhar, e um abraço.
Queria dizer que te aceito... Com todas as histórias que circulam sobre a sua pessoa. Com todos os olhares espantados quando ando segurando sua mão pelas ruas centrais. Com todas as suas amigas duvidando de minhas intenções. Com todas as desconfianças que estariam relacionadas à você, a mim, a nós!
Talvez por isso sejamos tão compatíveis, tão estranhamente similares, peças que a fábrica jogou fora, ovelhas negras.
E também espero que saiba que o que mais gosto em você não é nada em sua aparência, é o que exala. Dizem que certas pessoas são tão boas que exalam uma certa doçura, um cheiro único. Você é uma dessas, você é doce, de todo.
E o mais triste - também belo - de tudo isso, é que nunca vai chegar a ler isso, pois a coragem me foge quando penso em lhe dizer que neste momento, o que eu mais quero é apenas sentir seu perfume.
Ps: meu fascínio por olhos só encontrou explicação, quando olhei fixamente pros teus. "
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Três
Não sei porque me dizem assim, dizem que é rebeldia
hoje eu fumei três cigarros
correspondentes a um terço do dia
Hoje eu fumei três cigarros
o segundo simbolizando o que nunca foi dito, os amores perdidos
para sanar as dores das lembranças que me botam em grandes riscos
Hoje eu fumei três cigarros
o terceiro simbolizando o desejo, a estadia, a noitada
onde aproveito o ensejo, pra fazer findável moradia, na calada
Hoje eu fumei três cigarros
o primeiro para restaurar, a máscara de sorrisos
que visto em cada manhã, em cada respirar
Agora eu fiz três estrofes
para três cigarros iguais a mim, forma e gosto
em sua representação final, morte como posto.
Vamos voltar a conversar?
Eu poderia te levar à um café.
Onde a esquina é de vista boa.
A pauta principal seria sua vida atual.
Aonde não teria espaço para o meu ser banal.
Somente tua energia puramente doce
embaçando as janelas e forçando os que passam
a me olhar de relance, e a ti, por longos instantes
Poderemos conversar os pormenores fúteis de uma vida inútil
falar mal de sua família, de sua irmã, e lembrar de como é bom ser criança
falar de tudo que você goste e lhe traga sorriso fácil.
Não tocaria nos espinhos que agora lhe cercam a alma
te deixaria plena e segura, sem ter de zelar por si em minha presença
sem esperar estilhaços afiados em minhas palavras
ou volúpia desmedida em meu olhar
falaríamos dos pequenos que brincam no parque, a rir como bobos.
só queria te ver, sentar-me e ficar a admirar.
Vamos voltar a conversar?
segunda-feira, 18 de março de 2013
Experiência
Na penumbra de um parque qualquer, um senhor envolto em farrapos está deitado no papelão, não está dormindo, comendo ou vivendo... Passa ali, em seu papelão úmido, dias a fio pensando e observando quem está a passar na Avenida. Já viu demais, do mais natural acontecimento até o não usual, e dessa rotina que há em seu posto, vai pensando o que está fazendo ali, e o porque disso... Onde estaria sua noiva? Onde estaria seu filho? Nunca mais os viu, depois que resolveu sair do seu conto de fadas.
Há mais ou menos três meses viu pela última vez a soleira da porta de seu sobrado - financiado em muitos anos, mais anos do que gostaria de passar ali. Seu filho, estava entrando na fase de se prestar para a rebeldia natural da juventude, ele já foi assim, não se importou. Sua noiva, estava viajando, a forma como aquele amor surgiu foi no mínimo interessante.Uma vida de eterno carnaval teve seu fim quando enfim, ele a encontrou. Sorri e retoma seus pensamentos usuais.
Observa o fumante estressado que joga seu cigarro em via pública poluindo a cidade, observa o executivo, que ainda de terno - para sua surpresa - acende um cigarro de seda, observa as pessoas que passam por esse trabalhador, se diverte com as reações alheias; os skatistas que passam ficam olhando e rindo consigo, como que felizes pelo ato do engravatado; enquanto outros transeuntes não se conformam e logo pegam seus celulares, provavelmente para discar um, nove e zero...
Vitor se recorda de uma noite em que foi acordado por um outro senhor mal vestido, estava sujo também, este tal senhor lhe pediu seu cobertor emprestado...
- Só preciso dele esta noite, fui roubado e estou com frio...
- Pois então pegue.
Essa foi a pior noite de sua vida. Um mendigo descoberto é como um alvo brilhante para pessoas estúpidas e maldosas, e ele sabia disso, estar em Estado de Alerta na madrugada da cidade grande é algo extremamente cansativo, talvez seja por isso que nós vemos mendigos dormindo de dia.
Reviver essa recente lembrança o faz pensar no porque de tudo aquilo, sair de casa, renunciar ao conforto, apenas para se aventurar pelas ruas, para entender um pouco mais do meio que se encontra, e como vivem os excluídos desse mesmo meio.
Decide então voltar para sua rotina normal, seu trabalho normal, sua vida pateticamente normal. Se é que algo será a mesma coisa quando ele voltar dessa experiência, como explicar à sua esposa esse ato repentino, os meses que passou fora? Ele entrega nas mãos do destino.
Mas também fica ali a decisão de fazer algo mais por excluídos que como ele, já passaram noites temendo a morte certa.
Desejo
Quando acabar minha alma
quando tudo lavar, a água
quando ruir,tudo que fui
quando tudo que disse, sumir
quando singela presença não marcar
quando necessário for mudar
as botas não deixarão pegadas
não será material
não terei vida social
na verdade não sei
não me importa afinal
já que fui feito pra acabar
que seja natural e indolor
um beijo cheio de calor
sem mais cor, dor, torpor.
mais
Nada.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Auto retrato.
Costumava sonhar
aproveitando chances
percebendo nuances
admirava o amar
admirava tudo que poderia olhar
O tempo passava depressa
assim como as experiências espessas
diluídas em água de cevada gelada
onde a ingenuidade se tornou malícia
começou a confundir burrice e astúcia
Epopeias de outrem foram suas por inspiração
a mente cria o que vê e guarda na consciência
ciente e não consciente se foi
levando consigo o que restou dos cacos ,dos infinitivos
hoje não mais amar, sonhar, apenas... admirar.
R.C.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Fora do comum.
Ela me conhecia, mas não sabia quem eu era. Nos falávamos por entre as trivialidades de um dia-a-dia em que nos cruzávamos, trocando palavras ralas de profundidade. Um pouco malcriado, carrancudo em razão do sol que queimou meu rosto aquele dia - naquela manhã ao acordar, vi que tinha um pouco de serração acima do lago, logo achei que iria ser um dia nublado. Errado.
Foi de sol, tanto que a encontrei - percebi que só a encontrava em dias em que saia o sol, coincidência, ou era o sol que saía quando ela resolvia sair de sua toca. Entretanto, essa cara de desgosto que eu vesti escondia a admiração pelo sorriso que ela sempre levava, sempre, sem exceção - e me chamava de amor, talvez por não saber meu nome. Sei lá se isso é importante, nunca me importei como me chamam, gosto que apreciem além dos rótulos, o nome acaba sendo só mais isso - tanto que hoje tem gente que até interpreta o indivíduo pelo nome que tem. Patético.
O vestido curto e a maquiagem pesada dela não escondia os hematomas, porém o sorriso estava ali, no seu posto fiel, tenho até compaixão por essa princesa que nunca teve lua de mel, nem castelo, nem seguidor fiel. Talvez tenha seguidor, não fiel, mas ocasional e altruísta, que admira e percebe o quão egoísta o mundo foi, e é com ela. Mas está ali, com o sorriso no metrô, mesmo depois de uma noite arregaçando a todo vapor.
Chegou na sua parada, ela desceu, não antes de dizer "Tchau amor" - Despi minha carranca e fiquei pensando: "Não me importo com o nome, antes um amor da desconhecida do que um ódio de um chegado do lado. "
Segui meu dia depois da conversa breve, desci, entrei no escritório, montei planilhas, usual; mas algo mudou, o sol tinha saído pra vê-la, talvez eu também saísse todo dia na esperança de trocar algumas palavras no metrô com aquela linda e sombria mulher, e entre as cinco estações que me fazia companhia, (antes de descer), era apenas pra iluminar meu dia, consciente disso ou não - não é paixão, é elemento novo no dia, que destoa da rotina da metrópole fria. E não é?!
R.C.
domingo, 20 de janeiro de 2013
Longa observação
Uma tarde, duas pessoas num sofá. Um casal, ou seriam apenas grandes amigos ? Não sei, mas pelo jeito que as pernas dela se enlaçam na cintura dele, acredito que sejam um casal. O jeito que se olham também é um fator denunciante. Na verdade nesta cena existem inúmeros indícios de que sejam um casal, mas será que eles sabem disso ? Não sei, cheguei agora e estou só observando, estudando como a interação entre essas duas pessoas se parece muito com o que nos é descrito como química, como nas histórias antigas...
Estão conversando algum assunto sem importância, só pra passar o tempo, e falando algumas besteiras fazendo jus à juventude que esbanjam. Ali parados, como se o tempo fosse irrelevante e os problemas fossem apenas causos de uma vida distante.
Dizem que eu que criei os sentimentos, mas eles se manifestam de formas diferentes, fazendo com que fique difícil de identificá-los, portanto, é sempre um prazer observar minhas criações. Dizem que eu também sei dos destinos, saber, sei, entretanto não me lembro da maioria. Mas meu sexto sentido (sim, também tenho sexto sentido, sou uma parte da criação, já que foram criados a minha imagem, tenho algumas veias humanas) me diz que estão destinados à grandeza. Não sei se juntos, mas os dois carregam uma luz rara.
E sim, eles ainda estão no sofá e parece que o garoto está um pouco alto, porém não consigo dizer do quê, seus olhos fitam os dela por muito tempo, muito mais do que seria o normal, e eles se beijam novamente. Talvez seja apenas paixão, dizem que é uma droga mesmo. E eles estão vendo um programa de televisão bem idiota, no qual eu nem tenho certeza se estão prestando atenção, parecem estar mais preocupados um com o outro, isolados do mundo, perdidos um no outro. Como num rio que você só se deixa levar, é uma analogia interessante pra um casal apaixonado. É , eu decidi que eles estão apaixonados, só podem estar, não há outra explicação para tais olhares e tardes à toa.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Apenas sonhos
Se envolve nos lençóis como a criança que não larga seu brinquedo preferido. Aquele ambiente de solidão total é onde as nômades epopeias alçam voo, e onde os mais tristes baques se concretizam.
Sonhos são o refúgio mais intenso e longínquo que ele pode ter, seu ser almeja por isso a cada manhã que seus olhos semicerrados veem que o sol está a pino, tenta relembrar a sensação de estar pleno ao acordar, irremediavelmente não consegue achar as memórias do que acabou de pensar.
Divagou por entre os flashes que apareciam nas tórridas e queimadas lembranças:
Aquele embate entre dois cavalheiros provenientes da era das luzes, se desfez. Aquela linda mulher idealizada sumiu por entre outros mil devaneios. O Egito antigo foi sua casa durante muito tempo, e quando eras se passaram, somente algumas horas haviam se passado nesta dimensão inútil e desprezível.
E quanto à mais linda história de amor já vivida por um subconsciente ?" Essa sim é memorável. Os detalhes daqueles dias, daquelas noites que jamais serão esquecidas, das carícias trocadas frente à um muro de lamentações."
" O amor impossível que se perpetuou por entre catacumbas outrora usadas pra celebrar o nascimento de uma nova religião. Dois lados que viviam divididos n'uma guerra que só traria sofrimento. A inocência por ele perdida quando o sangue do inimigo jorrou enquanto à quilômetros dali ela suturava um pulmão perfurado por uma granada que seu amor jogara. A lealdade à pátria posta em cheque quando o sentimento mais profundo jorrou como o sangue do homem que necessitava de um torniquete. A mistura explosiva de dogmas diferenciados e de olhares apaixonados. O impossível que se tornou possível. Os esconderijos por entre becos históricos, os beijos apaixonados embalados pelos sons rasantes de foguetes. A verdade escondida nos olhos de dois amantes da noite, de si mesmos. Um amor real. Vencendo nações e outras idiotices segmentadoras."
Uma das muitas encantadoras histórias que um sonho trouxe, e os detalhes com ele foram. Ele pensa que precisa de um caderno para anotar os sonhos. Mas se nega a deixar que entrem no que é o mais íntimo de seus pensamentos, então deixa estar, os detalhes que ficam não há de renegar, mas também não procurará gravar.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Platônico
Platônico remontando épocas remotas
ressurgindo de tempos em tempos
na razão de um olhar apenas
o que estava longe e escondido, brota, avassalador;
Enebria com o sal do mar
encanta quando reflete a luz do sol forte
surpreende quando ri com a leveza de uma criança
e apaixona quando está por perto
Mãos procuram carícias sob luzes desencontradas
em uma serra veloz circundada de telhas monocromáticas
palavras não ditas em momentos oportunos
o que foi, o que não deveria ter sido, o talvez, a dúvida
Platônico. Sangue.
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