quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Aurora dos tempos

Vivemos tempos curiosos
nada módicos
o mundo está a ver a volta de seus filhos pródigos
das bruxas queimadas
dos poetas sombrios
das almas quebradas que voltaram para suprir
o que antes lhe atormentava
o que antes não os fazia enquadrar-se
o que antes não havia chance de mudarem

Ainda hoje
tais almas vagam com uma sensação de que não são daqui
trazem lembranças de uma sociedade não-terrena
e seus atos e tormentos, espelham sua diferenciação
mas encontram seus pares por onde passam
que hoje vem aos montes
para quebrar os paradigmas
os muros, as insígnias
queimar as bandeiras
reabrir fronteiras

Viver à uma nova maneira
sem medo, sem amarras inúteis
provando que a liberdade que dizemos ter inexiste
que há muito mais a ser buscado
não precisando ser rebuscado
renovando o modo de ocupar os espaços
de olhar o outro, reconectando-se com a natureza
preservando as boas certezas
renegando o que é desprovido de beleza
rindo da ganância e cumulatividade inútil
tendo empatia e sendo útil
levantando-se como onda
contra um Estado e um regime que envergonha


Rachando as jaulas mentais
rechaçando cada vez mais
tudo o que não é compreensão
nem que pra isso seja preciso derramar o próprio sangue


É uma guerra pela paz
uma Cruzada sagaz
por valores há muito esquecidos
propagados por Buda, Oxalá e Cristo
o verdadeiro Universalismo.

R.C.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Ouroboros 3

De quê me vale a vida se não a vivo?
Sou puro improviso
não planejo, procrastino longínquos objetivos
não sonho, devaneio entre os vivos
gosto de voar mas não tiro os pés do chão
não acredito em ninguém, não duvido de tudo
um paradoxo amorfo, obscuro
adaptável porém não influenciável
pensador de alma saudosista, quase depressiva
embora escuridão, ama a luz do dia
se apaixona pelos erros dos outros
pela psique quebrada, pela desilusão, pelo estranhamento
aprende, encanta, desencanta desanimado, desdenha do sentimento escasso
renasce e renova o traço
toma forma nova e se sente fênix!
surpreende-se com a própria força
mas ó... cai.

Por uma palavra ouvida, pelo desapontamento pessoal
pelas expectativas desmedidas
fraco quando é forte, forte quando é fraco
dualidade complexa, sair de casa com sorriso
quando queria mesmo era nem sair
sorri nervoso, a mente se trai
embriaga pra não lembrar a frustração que é
possuir sede de conhecimento, de renovação
sendo incapaz (no momento) de abrir mão
da crítica social que o afasta da acensão

Atormentado, enfrenta o silício calado
uma dor que inexiste de pausa, de parada, de parágrafo
não existem reticências para um espírito encarnado
o sofrimento está lá, é seu amigo
a consciência está lá, é sua juíza
condenando-o a reconhecer o ser quase
prelúdio do que deveria ser
apenas o começo do novo
apenas meio ouroboros
apenas uma águia que não quebra mais o bico...

Mas não! Dentro do mais fundo, do mais antigo que há
[na essência
algo surge, uma luz, um farol, uma chama crescente
que não permite o esmorecimento, que faz das conquistas diárias
um bálsamo ao tormento incessante
que impulsiona as mudanças, fazendo dos erros, acertos.

Não seria afinal, isso o viver?
este ciclo tempestuoso, com suas fases e obstáculos
de memórias vergonhosas e jubilosas?
Reconhecendo que o importantante
é a perseverança de não aceitar-se como é
de moldar-se, deixar ade ser amorfo
estando além de seus valores basilares
estes que consituem sua raiz forte
seus juízes corretores,concedentes de penas alternativas.

Decide não mais lamentar-se
não será mais uma alma deformada, não integral.

R.C.

sábado, 10 de outubro de 2015

Despido


Removendo escombros que sufocavam o sentimento
fiz de mim novos e belos augúrios para um novo tempo
motivado por um amor findo - ou em voga
hoje sou quem escolhi ser  e não de algo, cópia
- como outrora

Escolhi inúmeras vertentes para acalmar minha alma que jazia desamparada
escolhi meditações que acalentavam minha caminhada
escolhi companhias que me engrandecem em cada estada
decidi que para mim, nada do que está posto basta
e para meu futuro, somente o meu melhor será a resposta

Queimei as fotos, exclui as fotocópias digitais
mas não há como cauterizar feridas que se abrem
com pensamentos descuidados como crianças travessas
que não sabem os perigos a que se expõe ao correrem entre quinas

Senti por todo um tempo que valeu a eternidade
uma estranha saudade
do teu respirar, do aroma de tua pele
 da textura de tua epiderme
de cada sorriso que me brindaste
mas não de todas as lágrimas que derramaste
talvez por isso me resigne
a ser um meio ser que exprime
todo o pesar que é um amor sublime
findado por meninices.