domingo, 28 de julho de 2019

Palavras


Palavras me vem e tão logo me fogem 
como se eu pudesse segurar a verdade
em minha mão e tão logo me escapasse 
por entre os dedos que não apreendem

seriam todas as explicações fáceis de ter 
se as palavras certas fossem faladas 
mas elas escapam, e fico, ficamos 
sem ter ao que recorrer

senão aos livros metódicos de velhos 
há muito falecidos e seus ditos antigos 
não mais são a nossa linguagem 
a sociedade perece no perene 

e a língua... ah! a língua 
ela sempre ferina e nunca ausente 
em um tempo em que todos tem voz 
há a profusão de opiniões em nós 

tomando por conta apenas o individual 
sem o "nós", a palavra vai perdendo sentido 
e sendo de todo, trivial, banal é a escolha 
de que narrativa seguir, sendo que há sempre o refletir 

mas não antes de cuspirmos a lama da alma 
para depois pedirmos - CALMA!  
não me julguem por pequenas palavras 
quando o quadro pintado é segundo minhas próprias velarias

Então a palavra se funda no mais inóspito campo 
onde acham que ela se perde em meio ao tempo que passa
porém, em um tempo que não há memória 
seguir lembrando é verdade, pois a palavra é eterna. 

Rômulo Cesco

terça-feira, 23 de julho de 2019

Circuito

Vivo por entre as fases de um eu que não conheço
sou ser que renasce da lama e do fogo que emana
uma fênix que chafurda nos erros de querer ter prazer

circulo nas estradas do autoconhecimento
reconhecendo as falhas mas amando-as tanto
que nem penso mais em mudá-las, dados seus benefícios

A demonização de mim mesmo, a vida pré-estabelecida
e a que se apresenta, são coisas diferentes
enquanto o anjo que em mim habita clama por atenção.

Rômulo Cesco.

Angústia


Qual o sentido dessa angustia toda
que me assola de tempos em tempos
quando no caminho vejo seguindo
há ainda a sensação de uma dever descumprido

a arte me chama enquanto a mente diz que não vale
como hei de viver entre hienas distribuindo flores de afeto ?
fui forjado nas mágoas de futuros não ditos
bem como uma vida que me foi planejada mas está em declínio

como quem canta pra ossanha, peço que me enterneçam os mistérios
para que eu lhes ofereça pros meus que vem de longe e neles não creem
quem foi que demonizou a vida antiga e disse ser essa de trabalho maldoso a sagrada
vivendo para sobreviver com lampejos de alegria, com a sanidade em cheque

Sou daqueles que ainda vão achar novos caminhos nessa estrada viva e tortuosa
cada escolha é uma renúncia e minha essência clama pela justiça e pelo novo
vislumbro como virtuosa e mais cheia de gente e cores, sem ceder pra tristeza dos tempos
sigo sentindo a angústia que me leva a não acomodar, hei de vencer, hei de somar.

Rômulo Cesco

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Dia de São Valentim


O tempo passa e nem tudo se aprende
tanta gente pouco tempo presente
em lugar de pungente coração
encontramos um emaranhado sem solução

sabe-se de tanta de coisa pela net
mas a rede que nos cria é a mesma que impede
o despertar do amor verdadeiro
e no final
acaba sendo narciso adorando o próprio espelho

e eu vim de longe mulher
eu vim de longe pra cá
não é minha culpa se é fora de moda amar
mas acredite quando eu digo
que a verdade está nos olhos
não importam as notícias
nem todos os outros corpos

Não vim pra te tomar como minha
pois de alguém você jamais será
vim pra plantar apenas uma sementinha
e pra ver se a gente a gente brotar
depois de um processo germinatório
onde seu sorriso vai nos regar
não tenha medo dos perigos notórios
os melhores dias ainda hão de nos alcançar

Rômulo Cesco 



terça-feira, 2 de julho de 2019

Raízes

O sangue que flui em meu corpo
é muito mais que sangre rojo
é muito mais do que fluido vital
mais do que um sustentáculo de máquina

o sangue que flui em meu corpo
tem a força de meus ancestrais
que castrados de liberdade chegaram
que fugidos da fome se dispuseram

sou fruto de uma linhagem de sonhadores
é impossível que não seja mais
a veia que corre meu sangue
é a veia aberta da américa latina

a veia em que corre meu sangue
é a fuga do sangue que jorrava na europa
é a junção de todos os que lograram viver
quando seu prospecto era servir e perecer

faz sentido que eu me revolte
mas não faz sentido ser estanque
onde tudo grita "avante!", "adelante!"
não posso deixar que minha vida se defina por mim

devo isso à todos eles que amaram e sofreram antes de mim
que conseguiram fazer de suas histórias nunca contadas
uma linhagem honrada e cheia de repúdio pelas mentiras trasladadas
essa repulsa que pulsa em minhas veias e me faz ser quem sou

não me iludirei pelas mentiras que me contam
ou pelas tristezas que me chegam
sou cinzel de novos tempos que aproximam
mesmo que nos digam que estamos separados

sinto o mundo à minha volta e não desdigo
que sou meus ancestrais e minha educação
minha fé e minha alma, por enquanto, enjaulada
sou américa latina, o sangue do planeta.

R.C.