domingo, 19 de janeiro de 2020

Avistamento


Bem-vinda, aceita algo para beber? Puxe uma cadeira, antes de me contar tudo sobre você.

antes que venham as tempestades
me conte sobre os destroços da tua baía
o que fez do teu cais tão precioso que o sol até esfria
conte sobre as pedras raras que carrega no peito

quero também saber o que te impele
quero saber mais do que o que usa pra perfumar a pele
me fale sobre seus desejos, daqueles egoístas e pro mundo inteiro
aqueles que te marejam os olhos, arrepiam o pelo

vou te escutar pra te pintar num quadro em branco
bebericando do teu café, renovando a fé no santo
Santa Bárbara que me abençoe
pra captar esse furacão que tem nos olhos de besouro

linha por linha, sílaba por sílaba
cada pincelada terá o carinho e a calma necessária
pra fazer o retrato mais fiel de alguém
que só vejo de relance pela amurada

porque agora navego longe, em alto mar
e vejo esse porto no horizonte
não sei se mudo o leme nesse instante, pensando em aportar
esperando que até a âncora baixar, não tenha banco de areia adiante.

Rômulo Cesco


Sobre doçura


É um absurdo ser a doçura
considerada fraqueza
pois fraqueza é esconder-se
na brutalidade e grosseria

deixando calada
uma alma que grita
anseia por uma carícia

mas já endurecida
não pede e chora sozinha
enquanto nega um alento
que podia lhe aliviar o sono

prefere maldizer o mundo
sendo o arquiteto
do próprio abandono.

Rômulo Cesco.