sexta-feira, 4 de outubro de 2019

cantiga/ênfase 2x2/congo de ouro

Cheia de manha chega 
antes que que a manhã chegue 
no seu braço se aninha e aconchega 
é bom demais amor quando tá nascendo
mas se não respeita suas leis, a sua essência 
tome cuidado meu irmão 
com as armadilhas 
muitas vezes elas vem no sorriso 
da pessoa mais distinta

mas não se apegue mais do que puder 
proteja quem você é 
não se anule pra ficar noutra verdade 
são muitas as luzes artificiais da cidade 
elas fazem da noite algo de dia 
mas quando a realidade chega 
é balde de água fria

 a esperteza também tece armadilhas 
leve sua conduta pra onde for 
seja você da cidade ou interior 
a gentileza nunca vai perder pra força 
mais vale o anonimato 
que a fama que não é boa 
deixe que a lei se encarrega 
proteja-se porque muita coisa 
vem pra tremer sua terra

leve sempre na maciota a intuição 
o maior guerreiro é aquele que diz não 
saiba da força que carrega 
mas não precisa se provar, ter dum dum à pronta entrega 
lembre também do que te faz mais forte 
o reconhecimento de quem ama é o melhor suporte

não brinque com a vida ela é só uma 
ao menos com essa consciência 
seja ela de fartura ou penúria 
seja mais você diante das dificuldades 
só você sabe o que vale sua sanidade
pois o vento forte movimenta velas novas 
o navio do porvir zarpa e é sem demora... 

r.c.

domingo, 28 de julho de 2019

Palavras


Palavras me vem e tão logo me fogem 
como se eu pudesse segurar a verdade
em minha mão e tão logo me escapasse 
por entre os dedos que não apreendem

seriam todas as explicações fáceis de ter 
se as palavras certas fossem faladas 
mas elas escapam, e fico, ficamos 
sem ter ao que recorrer

senão aos livros metódicos de velhos 
há muito falecidos e seus ditos antigos 
não mais são a nossa linguagem 
a sociedade perece no perene 

e a língua... ah! a língua 
ela sempre ferina e nunca ausente 
em um tempo em que todos tem voz 
há a profusão de opiniões em nós 

tomando por conta apenas o individual 
sem o "nós", a palavra vai perdendo sentido 
e sendo de todo, trivial, banal é a escolha 
de que narrativa seguir, sendo que há sempre o refletir 

mas não antes de cuspirmos a lama da alma 
para depois pedirmos - CALMA!  
não me julguem por pequenas palavras 
quando o quadro pintado é segundo minhas próprias velarias

Então a palavra se funda no mais inóspito campo 
onde acham que ela se perde em meio ao tempo que passa
porém, em um tempo que não há memória 
seguir lembrando é verdade, pois a palavra é eterna. 

Rômulo Cesco

terça-feira, 23 de julho de 2019

Circuito

Vivo por entre as fases de um eu que não conheço
sou ser que renasce da lama e do fogo que emana
uma fênix que chafurda nos erros de querer ter prazer

circulo nas estradas do autoconhecimento
reconhecendo as falhas mas amando-as tanto
que nem penso mais em mudá-las, dados seus benefícios

A demonização de mim mesmo, a vida pré-estabelecida
e a que se apresenta, são coisas diferentes
enquanto o anjo que em mim habita clama por atenção.

Rômulo Cesco.

Angústia


Qual o sentido dessa angustia toda
que me assola de tempos em tempos
quando no caminho vejo seguindo
há ainda a sensação de uma dever descumprido

a arte me chama enquanto a mente diz que não vale
como hei de viver entre hienas distribuindo flores de afeto ?
fui forjado nas mágoas de futuros não ditos
bem como uma vida que me foi planejada mas está em declínio

como quem canta pra ossanha, peço que me enterneçam os mistérios
para que eu lhes ofereça pros meus que vem de longe e neles não creem
quem foi que demonizou a vida antiga e disse ser essa de trabalho maldoso a sagrada
vivendo para sobreviver com lampejos de alegria, com a sanidade em cheque

Sou daqueles que ainda vão achar novos caminhos nessa estrada viva e tortuosa
cada escolha é uma renúncia e minha essência clama pela justiça e pelo novo
vislumbro como virtuosa e mais cheia de gente e cores, sem ceder pra tristeza dos tempos
sigo sentindo a angústia que me leva a não acomodar, hei de vencer, hei de somar.

Rômulo Cesco

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Dia de São Valentim


O tempo passa e nem tudo se aprende
tanta gente pouco tempo presente
em lugar de pungente coração
encontramos um emaranhado sem solução

sabe-se de tanta de coisa pela net
mas a rede que nos cria é a mesma que impede
o despertar do amor verdadeiro
e no final
acaba sendo narciso adorando o próprio espelho

e eu vim de longe mulher
eu vim de longe pra cá
não é minha culpa se é fora de moda amar
mas acredite quando eu digo
que a verdade está nos olhos
não importam as notícias
nem todos os outros corpos

Não vim pra te tomar como minha
pois de alguém você jamais será
vim pra plantar apenas uma sementinha
e pra ver se a gente a gente brotar
depois de um processo germinatório
onde seu sorriso vai nos regar
não tenha medo dos perigos notórios
os melhores dias ainda hão de nos alcançar

Rômulo Cesco 



terça-feira, 2 de julho de 2019

Raízes

O sangue que flui em meu corpo
é muito mais que sangre rojo
é muito mais do que fluido vital
mais do que um sustentáculo de máquina

o sangue que flui em meu corpo
tem a força de meus ancestrais
que castrados de liberdade chegaram
que fugidos da fome se dispuseram

sou fruto de uma linhagem de sonhadores
é impossível que não seja mais
a veia que corre meu sangue
é a veia aberta da américa latina

a veia em que corre meu sangue
é a fuga do sangue que jorrava na europa
é a junção de todos os que lograram viver
quando seu prospecto era servir e perecer

faz sentido que eu me revolte
mas não faz sentido ser estanque
onde tudo grita "avante!", "adelante!"
não posso deixar que minha vida se defina por mim

devo isso à todos eles que amaram e sofreram antes de mim
que conseguiram fazer de suas histórias nunca contadas
uma linhagem honrada e cheia de repúdio pelas mentiras trasladadas
essa repulsa que pulsa em minhas veias e me faz ser quem sou

não me iludirei pelas mentiras que me contam
ou pelas tristezas que me chegam
sou cinzel de novos tempos que aproximam
mesmo que nos digam que estamos separados

sinto o mundo à minha volta e não desdigo
que sou meus ancestrais e minha educação
minha fé e minha alma, por enquanto, enjaulada
sou américa latina, o sangue do planeta.

R.C.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Alvorecer


Bom dia meu amor
ontem te disse tanta coisa
não tinha cobertor
foi tão boa nossa transa

fazia tempo
que eu não tinha uma mulher tão boa
fazia tempo
que não sentia quando a alma ecoa
e em uníssono com outra, ressoa

quanto tempo a gente perdeu
onde você se escondeu
todo esse tempo que era pra ser nosso
a gente errou com outros sócios

nesses contratos de amores vazios
os nossos copos só tinham gelo e nada
além d’essa vontade de ser mais gentil
há quanto tempo já te via pelada

(interlúdio -  em tantos sonhos, pagãos)

então vem aqui de novo
deitar comigo na rede
eu vou matar no teu corpo
toda essa minha sede
de amar e ser feliz,
de não ter perguntas e nem respostas
eu só quero que prometa uma coisa
seja sincera em suas apostas


R.C.

Rios


Eu te vi de tantas faces
eu te vi de tantos ângulos
eu te vi de olhos lânguidos
eu te vi no fogo brando
eu te vi queimando
eu te vi nadando
dentro de você
dentro de mim
doendo mais que tudo
mas não saia de mim
se aninhe aqui dentro
enquanto passa a tempestade
não façamos tanto alarde

porque o amor dói mesmo
somos fruto da cidade
das artes e de todas as liberdades
que tanto nos prendem
um emponderamento que isola
a verdade é que morreu
a geração coca cola

porque hoje meu amor
eu queria era morrer
pra poder renascer
em um mundo sem sofrer
onde pudesse te amar sem nunca me preocupar
se se alimenta o vizinho, se morre prematuro o menino
se o estupro é endêmico e nós aqui sorrindo
que felicidade infeliz com tanta dor a minha volta
eu queria tudo e todos mas o que vale é a copa
e você não mais entende toda essa dor de mundo
então brindemos nossos cálices e sejamos sono profundo
caminhemos com os zumbis das 9h as 16h
depois bebamos até cair e só voltemos ás 6h...
sem renascimento
antes de lembrar que em algum lugar
a mãe cospe em seu rebento...

R.C.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Não pudemos viver de acordo

Se porventura te ver na rua
vou lembrar dos sorrisos
das carícias e das promessas
como se fosse lá longe no tempo

Apenas uma dessas histórias que mudam a vida
apenas uma dessas folhas que caem das árvores
apenas uma dessas maldades de deuses menores
apenas uma dessas águas de rio que fluem pra outros lugares

Quisera eu ser tudo o que pretendia
quisera eu não ter te odiado com todas as forças
quisera eu não ter sido o pior dos meu dias
quisera eu não ter dado ouvidos à tudo que já sabia.

R.C.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Sobre perguntas e respostas.




Perdoa minha mansidão de tempestade
meu olhar que vai longe
que não pede aprovação
que compreende e sente dor.

Onde estive é lugar de fundura deplorável
de lá voltei mais ameno
menos amargo, mais afável
mas ainda longe de estar pleno.

Deixei pra aceitar as ideias dos homens
pra quando meus olhos fecharem pra sempre
nesse tempo que por aqui caminho
pra ver o que me espera ali na frente.

Não dá pra acreditar no que me dizem
nas notícias que leio e na vida que me ofereceram
a única coisa que sustenta meu espírito é a poesia
a verdade única da vida é a dicotomia da noite e do dia

O resto a gente se ajeita pra viver
entende e passa a crer em alguma coisa entre o céu e a raiz da árvore
os ideais são pros jovens que tem fome de alguma coisa
o que sou é guiado somente pra que ninguém mais tenha fome.

Perdoa minha mansidão
meu olhar que vai longe
que não pede aprovação
que compreende e sente dor

Eu fiz demais, já falei demais
os girassóis da cor de outro cabelo
a maré de outros olhos
vou deixar o caminho fazer sentido no final.

Agradecer a quem vier
depois que olhos se abrirem
depois de haverem fechado pra sempre
se é que você me entende...

R.C.