segunda-feira, 18 de março de 2013

Experiência



Na penumbra de um parque qualquer, um senhor envolto em farrapos está deitado no papelão, não está dormindo, comendo ou vivendo... Passa ali, em seu papelão úmido, dias a fio pensando e observando quem está a passar na Avenida. Já viu demais, do mais natural acontecimento até o não usual, e dessa rotina que há em seu posto, vai pensando o que está fazendo ali, e o porque disso... Onde estaria sua noiva? Onde estaria seu filho? Nunca mais os viu, depois que resolveu sair do seu conto de fadas.

Há mais ou menos três meses viu pela última vez a soleira da porta de seu sobrado - financiado em muitos anos, mais anos do que gostaria de passar ali. Seu filho, estava entrando na fase de se prestar para a rebeldia natural da juventude, ele já foi assim, não se importou. Sua noiva, estava viajando, a forma como aquele amor surgiu foi no mínimo interessante.Uma vida de eterno carnaval teve seu fim quando enfim, ele a encontrou. Sorri e retoma seus pensamentos usuais.

Observa o fumante estressado que joga seu cigarro em via pública poluindo a cidade, observa o executivo, que ainda de terno - para sua surpresa - acende um cigarro de seda, observa as pessoas que passam por esse trabalhador, se diverte com as reações alheias; os skatistas que passam ficam olhando e rindo consigo, como que felizes pelo ato do engravatado; enquanto outros transeuntes não se conformam e logo pegam seus celulares, provavelmente para discar um, nove e zero...

Vitor  se recorda de uma noite em que foi acordado por um outro senhor mal vestido, estava sujo também, este tal senhor lhe pediu seu cobertor emprestado...

- Só preciso dele esta noite, fui roubado e estou com frio...
- Pois então pegue.

Essa foi a pior noite de sua vida. Um mendigo descoberto é como um alvo brilhante para pessoas estúpidas e maldosas, e ele sabia disso, estar em Estado de Alerta na madrugada da cidade grande é algo extremamente cansativo, talvez seja por isso que nós vemos mendigos dormindo de dia.

 Reviver essa recente lembrança o faz pensar no porque de tudo aquilo, sair de casa, renunciar ao conforto, apenas para se aventurar pelas ruas, para entender um pouco mais do meio que se encontra, e como vivem os excluídos desse mesmo meio.

Decide então voltar para sua rotina normal, seu trabalho normal, sua vida pateticamente normal. Se é que algo será a mesma coisa quando ele voltar dessa experiência, como explicar à sua esposa esse ato repentino, os meses que passou fora? Ele entrega nas mãos do destino.

Mas também fica ali a decisão de fazer algo mais por excluídos que como ele, já passaram noites temendo a morte certa.

Desejo



Quando acabar minha alma
quando tudo lavar, a água
quando ruir,tudo que fui
quando tudo que disse, sumir
quando singela presença não marcar
quando necessário for mudar
as botas não deixarão pegadas

 não será material
não terei vida social
 na verdade não sei
não me importa afinal
já que fui feito pra acabar
que seja natural e indolor
um beijo cheio de calor
sem mais cor, dor, torpor.

mais

Nada.