sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Rotina



Um pouco cansado do mundo e da rotina do dia a dia, Joel entra no seu carro e pisa fundo no acelerador, querendo logo chegar em sua casa, para ouvir suas músicas, para fazer carinhos em seus cachorros, pra sentir aquela solidão deliciosa pela qual ele tanto lutou. Antes de chegar em casa, tem de passar na padaria pra comprar pão, queijo, salame e maionese - ele tem o hábito de conversar com os atendentes, saber como foi o dia deles, interagir, entendê-los, se fazer presente no dia deles, deixar um pedaço seu ali.

Compra também biscoitos crocantes para seus cachorros, gosta muito deles, são como se fossem seus filhos, seus únicos filhos, seus familiares, seus amigos. Joel vive na dualidade de estar sozinho e se sentir só. Joel trabalha numa daquelas empresas que te deixam extenuado fisicamente mas deixam o intelecto intacto - como que dizendo que o homem forte não tem nada mais à oferecer do que seus músculos, e que seu cérebro não faz nada de bom além de mandar os comandos que movem as pernas, braços e mãos.

Ele não tem muito estudo, nem tanta posse assim, tem um fusca meia sete e uma moto de duzentos e cinquenta cilindradas - que usa pra longas viagens. Sua casa é alugada. Seus cachorros são comprados. Sua vida é dada. Nada é dele. O carro vai enferrujar, com a moto ele vai cair e se ralar. Os cachorros morrerão.

E ele, o que deixou ? Deixou uma vida inteira de tevê ligada depois do trabalho, passando a roupa do dia seguinte, lavando a roupa suja do dia de hoje, ligando pra mãe e pro pai, querendo saber da irmã que está no centro de reabilitação. E o que sobra pra ele ? A raspa do pão, o bagaço da laranja, a seringueira sem seiva. E o amor Joel? Aonde está o teu amor ? - Pensa ele consigo. Não sabe se responde ou se cala aquela voz que lhe pergunta, sendo que a resposta pra essa pergunta ele não tem. Minto. Tem, ali dentro ele sabe que tem. O amor.

- Aquele sentimento que sempre vem acompanhado de dor ? - Não Joel, aquele que te ensina que pra ter felicidade, qualquer dor é insignificante.

"Mas esse não conheço, não sei de onde vem e nem sei se existe."

Joel olha pra seus cachorros e sente a fidelidade deles é amor. Amor no seu mais puro exemplo. Amor na sua mais pura forma. E ele ri pensando em todas as mulheres que o chamaram de cachorro... "Ah, se elas entendessem"; afasta de si esse questionamento que só o faz perder tempo, tem que fazer comida e ver a novela das oito, depois vai dormir, pois amanhã a rotina chama e precisam de seus músculos, e não de seus questionamentos.



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Soneto da confirmação.



Rosadas faces que sorriem para ti
olham a mim, mas sorriem apenas para ti
com a pena que transparece nos olhos
e te ruboriza as maçãs, transmitindo melancolia.

Preso à métrica, não que me prenda
ainda assim a patriarquia de uma tal vanguarda esperada
novos tempos, eternos antigos dias
pequena menina, disse-lhe que era passageiro...

Sorrir-lhe já não lhe faz sorrir
de que adianta então tanta vontade ?
Se as barreiras tuas já se levantaram contra meu estandarte.

Roubo do santo pai para te trazer a lua
Roubei da tua aurora pra tentar te amadurecer
como fruta formosa que era, acabei lhe azedando.


Mesmo que passássemos anos a fio
a bonança, nas lembranças, seria o vazio.

Soneto do conhecimento.


Todos riem enquanto o cigarro queima no cinzeiro
e nesse cigarro que queima vejo a fumaça se perder
e me comparo a ela, pois o gosto que traz
é o mesmo que se esvai. Rápido, brisa passageira.

E nisso me perco em todas as lembranças que eu tenho
lembrei do que me vinha na tarde de lágrimas
eu falava sozinho e pedia desculpas pro vento
já que quem deveria ouvir não encontrava ali, nem aqui. Nem em qualquer lugar.

Misturas de emoções, do que pensei no passado
hoje confirmações, essas se fizeram presentes
mas a vida é isso mesmo, o desafio é seguir em frente.

No que me lembra, no que me traz
é tudo intransponível, me lembra alcatraz
mas mantenho aqui dentro, viva ao que relembrais.