sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Poema para meu conhecido, espelho do espetáculo.

Você, que é meu conhecido
e almeja os louros do carro do ano 
acompanhados da conta bancária
e um cartão platinado com milhas a perder de vista
Você, que é meu conhecido
e almeja a cintura da pele bronzeada
da loira dourada que estampa a revista
sempre procurando essa mesma pessoa nas suas conquistas
O que eu lhe desejo, do fundo de meu espírito
é a sorte que encontres o que tanto procuras
e que as coisas que amealhou nesse sopro que é a vida
lhe valham mais do que vou listar agora
Mais do que a pausa do cigarro em um dia atribulado
mais do que o olhar debochado de uma criança endiabrada
que ao ouvir seu "não" lhe levará por uma dúbia estrada
onde seu riso brotará quando querias fazer cara de repreensão
Que valha mais do que os amigos à sua volta
compartilhando histórias, trazendo nos olhos a alegria de uma amizade real
em um boteco qualquer, desprovido do glamour dos pratos rasos
destes que levam torresmos fritados enquanto os risos ecoam no prazer do trivial
Que valha mais do que a profundidade negra dos olhos da mulher amada
essa que é amor de navalha, que lhe rasga de dentro pra fora
a cada amanhecer, que de cara feia magoa, que quando sorriso, ecoa
reverberando em todo teu ser
Que valha mais do que esses momentos estranhos
em que a gente se pega olhando o céu e odiando a vida cruel
quando logo após, n'uma epifania, tudo faz tanto sentido
que cai uma lágrima que exprime essa vida tão linda
[de sorte, árvore, rio, sorriso, orgasmo, nuvem e petrichor.
Por fim, meu querido conhecido
espero que no teu último suspiro os teus conhecidos
se recordem de ti, também com suspiros e riso no canto da boca
agradecendo a tua presença nesse sopro que é a vida

R.C. 

Singeleza de pensar.

Ora, é útil ser díspare
em mundo dito são
ver o quadro puro
quando dizem não teres razão
oscilando entre a iluminação e a mundanez
é verdade que nós somos o restante
a raspa da excelência da criação
com todos os sentimentos conflitantes dos humanos
também com o amor e compaixão dos anjos
que compreendem a cadência divina
do cair da folha ao terremoto no japão
sem perder a compostura
inauguramos com nossas condutas novos resgates
mas também resgatamos carmas inúmeros
com o sentimento de doação que carregamos
junto ao veneno que nos corrompe o corpo.

R.C. 

Sobre a semana que assassinaram Mariele.

É tenebrosa
Não podemos negar
Entra ano e sai ano
Manchetes variadas pra atormentar

Povo que se entende crítico
Povo acreditando ser parte de outro ciclo
Povo maldizendo os benditos
Povo bendizendo os malditos

Guerreiros e guerreiras de pautas nossas
Doam a vida, ganham bala 
E o escárnio não demora 
Do brasileiro caolho a mando das cobras

De onde você vem e onde vai? 
Esse futuro presente é o que prega? 
Olha à tua volta, a gente se mexe
Não só na internet se faz voz

Presentes, todos os assassinados e desaparecidos
Nunca esquecidos 
Por quem lhes toma como exemplo
Não nos curvaremos à exceção

Não seremos humanos 
Se permitirmos essa degradação 
Essa desvalorização da vida.
Todas essas pessoas tinham sonhos.

O Amarildo não apareceu 
O Braga nunca mais comprará Pinho sol
A Marielle nos deixou um vácuo no cumprimento do dever de cuidado com a sociedade
E todos os outros calados sem a repercussão midiática

Nos farão falta.

Centenas, milhares nascem todos os dias
Mas vida não é matemática
Quem vai faz falta

Pra família, pro amigo
Pro contexto social
Pra um mundo do que precisa de respiro
Lembra de quando você ainda era humano?

Retoma. Não dá mais tempo, mano. 
É esse o momento
Para de engolir merda ,salivar veneno
Toma pra ti esse apelo.

R.C.

Carna(e)val.

Chegou e foi 
o carnaval de muitos reis e rainhas 
onde os demônios de cada um 
tomam suas caipirinhas
acompanham os blocos 
e extravasam na pista

ora, não me leve a mal 
demônio é só alguém fora do status quo 
da ilusão do papel social 
da sexta à quarta de cinzas 
o que você menos precisa é de máscaras
e tudo o que mais se vê

é que somos feitos mais de alegrias do que de desgraças 
e que o papel social, bom... ele não serve pra nada 
uma festa que iguala os foliões 
na pista independente das razões 
é respeito às diferenças e sem maiores delongas 
um carnaval é torpor de multidão

ligeiro na calada, sempre 
mas vê se no sorriso de quem está do lado 
há algum esgar de maldade 
há alguma solução para o escárnio 
há apenas a vontade de ser tudo e nada 
pois depois o mundo voltará a lhes pesar todos 
em uma balança nunca equilibrada 
nunca benéfica para a sanidade mental

ora, porque ser apenas poucos dias do ano
quando podemos ser sempre carnaval ? 
jogar as conveniências e convenções pro ar 
esquecer de manismos e nojentas rotinas por um tempo 
sejamos compromisso e responsabilidade 
mas não algo que nos tolha a liberdade 
de ser, de expressar, de viver como quem só quer amar 
sem condições, amarras, cláusulas e afins .

Veloz


Se movem todos
a vida é movimento
de tempo em tempo
Sem respirar

sabem todos pra onde vão
confiantes e argutos
seguem seu caminhar -multidão
enviesando pelas veias metropolitanas

Injetam poluentes nas artérias da cidade
fazem do tempo seu inimigo
ao (tentar) conciliar obrigações e vontades
n'uma imensidão de incerteza

Buscando a terra prometida
sem que lhe dissessem onde é
buscam na escuridão do tatear
uma vida que possam se orgulhar

Flechas, bússolas, livros e minúcias
progresso para uma vida que lhe venderam
um status passageiro e um caixão certo
rumam velozes ao abismo

Não param no instante da reflexão
não buscam a si mesmos para execrar a pretensão
das máscaras que usam, ao contrário!
as vestem como quem ama o teatro

sabem todos pra onde vão
confiantes e argutos
seguem seu caminhar -multidão
enviesando pelas veias metropolitanas

fazendo de si espelho do que o mundo dá
colhem tanto sem nada semear
o fruto vazio da perdição dos tempos
é a velocidade do ganhar e perder

- tudo é passageiro.

R.C.