sexta-feira, 24 de julho de 2015

Crise dos 20


Eu tenho vinte anos de idade
vinte anos de imagem
vinte anos de opressão midiática
vinte anos de  probabilidades perdidas
vinte anos de ilusões vívidas
vinte anos de buscas e apreensões
vinte anos de baús de lembranças em meus porões
vinte anos de relutância em dar importância aos tostões
vinte anos de fascínio pela fumaça
vinte anos de uma essência dramática
vinte anos de um furacão esporádico
vinte anos de uma calmaria que é prelúdio de calvário
vinte anos de tours para o inferno disfarçados de amores
vinte anos de rancores
vinte anos de esquecimento de onde vim e pra onde vou
vinte anos entendendo quem eu sou
vinte anos
choro ou sorrio? vivo ou suicido?
o mundo é belo demais em sua natureza
e os humanos são nojentos demais
com toda a franqueza

vinte anos de vivência
de que isso vale?
em um mundo em que lealdade não existe
falsidade é produto mais consumido
do barato ao mais caro
somos todos estragados
oprimidos e enclausurados
apodrecendo em jaulas mentais
forçados a viver como animais
obrigados a esquecer nossa bondade
nossa docilidade gera personalidade atacada
onde está a volta dos índigos?
onde está o planeta em transformação ?
o fim dos tempos de dor e rancor
onde estão ?

Onde está a aurora dos dias com o novo século?
Das ideias que hão de revolucionar e libertar o viver?
Onde está a juventude que abrirá mão do supérfluo?
aprenderá a amar, aprenderá a aceitar seus pares
sem que tenhamos que nos matar, nos odiar aos milhares
nos segregar e fechar em pequenos grupos
discricionados por senhores que falam em púpitos
de batinas ou de terno e gravata
nos arrebanham e matam pela mágoa
nos despertam o mais visceral da crueldade
e nós nos aceitamos como espadachins de fé inabalável
quando deveríamos agir cada vez mais de modo afável

Perdemos nossos sonhos
nos tornamos tristonhos
a troco de quê ?
de um troco qualquer
de uma noite qualquer
de um trabalho qualquer
de uma vida sem significância
cheia de relâmpagos e tempestades
sem bonança

Nesses vinte anos
o que mais fiz foi me decepcionar
ressurgir com mais esperança
e vê-la minguar com os dias que decorreram
quero acreditar em um mundo melhor
quero olhar pro meu semelhante e encontrar mais
do que um recipiente vazio, uma alma que congelou com o frio
das relações sociais, da humilhações diárias, da dureza cotidiana
quero me libertar
 olhar o horizonte
apagar as fronteiras
quero ser feliz e rir aos montes
quero me despir do medo que faz andar com uma faca na cidade
quero me despir da malícia que faz piada de uma frase mal colocada
quero
deixar de ser sociedade
quero ser humano, só bondade

vinte anos que valeram por mil
quebra de paradigmas já tive muito por um só Brasil
vinte anos
em que
vi
os melhores
nesses vinte anos
morrendo de overdose
por se afogarem pra não ver
o mal que assola
todos os dias
de todas as formas
a mim e a você.

R.C.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Reciclo(ado)


As vezes eu flutuo
as vezes fico de cama
pelo sentir
em uma proporção tamanha
que me tira a atenção
da posição tacanha
dos homens
da política assanhada
da malemolência forjada
pra enganar multidões

me joga no abismo
com um elástico preso à cintura
como um cinto
sinto
de formas diferentes
em dias ausentes
em dias presentes
de corpo e alma
falta de calma
vontade de mudar o mundo
vontade de fechar a janela
a dualidade
em  cada linha
em cada quebra
mas
a vida segue

a humanidade caminha
rumo ao abismo
mesquinha

 eu aqui
com meus amores
findados e em curso
remanescências de um subúrbio
do amar

 meu ninho
fumando meu cigarro
sozinho
prefiro compor sobre o sentimento que tenho
sobre o escárnio que vejo
do que sobre as razões que possuo
pois minha vida é mais que racionalização
ás vezes é preciso um pouco mais de coração
senão
adormece a visão
perde-se a audição
a vida passa a ser cinza
e a cidade vira rotina
melancolia travestida de dia a dia
prefiro então ressurgir !
como lagarta do casulo
borboleta se faz
pra ganhar o mundo
e morrer logo mais

nesses ciclos de morrer e ascender
criar e transcender
digo, à rotina de ser eu mesmo
jamais me laçará
andando sem direção
à esmo
porque na lapidação que me proponho
morrer é matar o estorvo
que jaz em meu peito

e pro leigo
mato o meu medo
renasço destemido
confiante e temido
de olhar feroz e comedido
sendo um melhor amigo
uma pessoa diferente
sem deixar, em essência,
de ser eu
o jocoso
o sério
o direto
o adorno
aquele que o pão que caiu no chão
sorridente comeu,
Rômulo, o plebeu.


R.C.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Sobre o amanhecer.

Todo dia, descobrimos que pode ser o recomeço. Nos perguntamos, recomeço de quê? De tudo, oras!
Recomeço, de amizades que há muito deixamos de lado por motivos fúteis, essas que uma vez ou outra nos pegamos pensando sobre. Recomeço, de uma aproximação mais amorosa com nossos familiares, pelos quais nutrimos grande afeto mas nem sempre, por diversos motivos, conseguimos ter uma convivência pacífica. Recomeço, de uma vida que sempre sonhamos, com as realizações pessoais que apenas nós sabemos que nos preencheriam, mas por inúmeras razões, decidimos procrastinar.
Todo dia é uma chance pra ser melhor do que ontem, não quer dizer que seremos diferentes e uma metamorfose total. Todo dia é uma chance pra se despir das máscaras que nos colocaram, que nós colocamos, que nós aceitamos colocar para sermos aceitos, passarmos despercebidos. A isso eu digo não!
Somos diferentes, inúmeras nuances, pequenos seres de luz que apagam a si para se adequar ao cinza da cidade. Em essência somos iguais, discordo quando dizem que o homem é ruim, como se fosse inerente. Não, somos animais, e como animais, quando acuados fazemos coisas que normalmente não faríamos, e o que não nos acua hoje em dia? Vamos abrir mão dos rótulos, dos melodramas, da transferência do peso da culpa de nossos atos, dos comentários infelizes à respeito de outras pessoas, sobre as escolhas de outras pessoas!
Garanto que se botarmos em prática, o dia em que isso acontecer será melhor que o anterior. Pois como humanos, temos a possibilidade de sermos super-humanos, comermos nossos defeitos em cada jantar, sermos mais dóceis, afáveis e atuantes em cada amanhecer.
Somos potência, deixemos cair o peso inútil que aceitamos carregar, carreguemos a cruz de trabalhar pelo amor, que por si já pesa, o resto, é passageiro.
R.C.