segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Carta para uma futura poeira



De nós só restará a velha casa - com nosso quarto (que pintamos logo que mudamos), o túmulo do gato amado. Nossa gigante coleção de livros, nossos inúmeros filmes - nosso prazer escondido em palavras e cenas , meus ternos empoeirados - que há muito já não uso, suas blusas e tecidos - me encantam esses tantos que são. Só restarão nossos porta-retratos cheios de memórias preciosas, nossos álbuns com o recheio de uma vida toda - podendo ser apreciado milhares de vezes pelos que deixamos por aqui, e também restará esta carta. 

Que fiz somente para sentir a beleza do abraço final. 

Visto que seremos pó logo que nossos corpos puídos e levemente putrefatos entrarem no forno, agradeço desde já por onde me jogarem, quiçá um lugar belo, como as praias desse nosso Brasil, talvez, não sei. Era só uma sugestão, para nossos filhos fica então a tarefa de nos entreter as cinzas, fazendo presenciar a paisagem mais bela que nossos olhos não conseguiram fitar. É, nessa vida dá pra se ver muita coisa... 

E eu te vi. Isso me bastou, todo esse comum foi prazeroso demais só por te ver acordar, tu foi sorriso, me valeu a razão de viver. E agradeço que eu te vi... quem sabe não nos revejamos? 

de teu amado ontem,hoje, 
no fim sem nome, enfim, 
Pó.

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