"Seguidamente sinto-me engolido pela massa, pela aglutinação de informação rasa, por muita gente rasa. Sim, todos esses rasos, não-profundos, ralos e sem cor. Iguais. Em forma de roupas produzidas em larga escala para estereótipos incutidos subliminarmente - todos vindo à tona quando piso na rua. Como se todos as palavras já ditas foram jogadas ao relento, o vento as levou para outros ares mais nobres, e eu fiquei aqui. Na submetrópole, subjugada e subnutrida de finalidade.
Somos um organismo vivo que tende a continuar cegamente no martírio diário, imposto pelo capital agressivo... E o alento? Ah... Deus salva e amortece tudo.
Entristeço, pois já não me dá esperança de continuar vivendo nesse meio-termo, nessa meia-vida, nessa limitação toda. Nessa rotulação excessiva. Nessa meia história já escrita.
Não há livre-arbítrio, apenas discricionariedade.
Acredito que as necessidades humanas são muito maiores e plurais do que apenas viver para ser número. Para ser rebanho e parte ínfima de um certo volume pra voto. Me recuso a fazer parte dessa farsa. Mesmo que pra isso tenha que ser recluso - o que até pra isso precisarei de dinheiro, portanto, terei que trabalhar n'um emprego que não gosto, com pessoas de alma pequena, de cabeça pequena e pior, de boca escancarada. Escarraria na cara de todos se pudesse.
Caso não venha a ser um recluso. Chegará um dia em que meus porres não mais aliviarão, que a maconha não mais me tornará mais leve. Um dia em que os livros que li me farão explodir a cabeça tranquilamente, sabendo que independente de onde vá, serei mais livre do que aqui, pois já sei que não há mais nada lá fora para mim.
Essa é a meta. Viver, reter, repassar, aprender até cansar, e quando cansar, partir. Sem hora-extra."
R.C.
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