sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Lia


Ela observa o mundo, da janela gradeada de seu quarto, como se nada importasse. Lá fora não tem nada pra ela, apenas dor, sofrimento e sol. Esse mesmo que traz a vida e desgraça as vidas do sertão. Sem graça, o dia nublado de hoje a faz ter vontade de fumar. E fuma, da janela gradeada, observando enquanto a vida passa. Não é acomodada, gosta de entender o que se passa lá fora. Mas se iludir com promessas e se encaixar nos padrões nunca foi sua vontade, ficar em casa a faz ter paz. Suas plantas, árvores frutíferas e animais, o seu limite é o limite do terreno, os muros, o portão. Ela é audaciosamente fora dos padrões, vazia na medida em que permitem seus livros cheios de paixão imaginada.

Infelizmente para Lia, não dá pra ficar em casa e ainda sim poder comer, fumar e se embriagar ocasionalmente; então recobra o senso de responsabilidade ridículo que sua mãe incutiu nela e sai de casa para distribuir alguns currículos. Já na rua, se depara com uma discussão entre um freguês insatisfeito de um fast-food e um gerente complacente e compreensivo. O tal do cliente estava chateado porque seu sanduíche não havia vindo de acordo com seu pedido, mas o escândalo que o sujeito fazia - e o nojo que Lia sentiu dessa atitude mesquinha - a fez ficar com vontade de fazer o caminho inverso e voltar pra casa, pros seus animais e suas plantas.

Foi o que fez, Lia voltou pra casa e começou a fazer a única coisa que o mundo permite para uma pessoa solitária e introspectiva; virou escritora, vendeu,endinheirou-se, embrenhou-se no seu lar e voltou a sorrir. E até hoje Lia volta no fast-food nos tempos em que o dinheiro é pouco, para se lembrar do porquê resolveu se isolar. Pessoas são babacas, e animais e palavras são melhores para se ter e receber carinho. Além do mais , ela percebia que as plantas lhe davam sim, carinho, ao compartilhar com ela toda sua beleza, só com ela, que cuidou e regou-as com tanto zelo. Lia é sorridente - de sorriso amarelo, é feliz, é só, e ao menos não trabalha no M amarelo.


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