quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Sobre vícios e conexões em tempos escuros.


 Por inúmeras razões, desde questões mais pessoais quanto por questões de interesse público, senão mundial, podemos enlouquecer;  beber para esquecer ou liberar um lado mais descontraído , fumar um baseado para amenizar a pressão  ou cheirar cocaína para nos sentirmos vivos. Em um lugar, onde  pela mesma medida, diferentes inteligências e talentos são julgados, e infelizmente, padronizados - senão normatizados, é fácil de perder a medida de si mesmo e abrir mão, temporariamente, da própria sanidade. Fazemos isso com as mais variadas autojustificativas, ou simplesmente pelo luxo de que podemos fazê-lo. Liberdade (?).Frisando que neste texto, falo das pessoas que fazem do desfrute socializante uma fuga, a vontade do dia.

Não que sejamos indivíduos ruins, pessoas que utilizam-se de entorpecentes para conduzir-se de modo desagradável à outrem. Só fazemos mal à nós mesmos com tais atitudes, muitas vezes esquecemos que tais atitudes tornam infelizes aqueles que nos cercam, que por nós tem amor ou qualquer espécie de apreço.

Sem a glamourização de estados mentais  alterados ou de atitudes moralmente reprováveis que hoje temos pelos diferentes meios de comunicação assim como na nossa convivência social,  o que nos resta é a constatação de que padecemos de imaturidade para lidar conosco, por não conseguirmos estabelecer - em maioria - laços além dos rasos, quebradiços, como os (i) profissionais, os quais o assunto gira em torno de causos no ambiente de trabalho, mercado financeiro, discussão política rasa etecetera; e os (ii) festeiros - como tomei a liberdade de classificar, que se resumem em relações de camaradagem momentânea e divisão de contas do bar ou da droga consumida ; de modo que não conseguimos nos comunicar com outra pessoa, para que talvez essa possa nos fornecer apenas a compreensão que um não julgamento traz, a capacidade de nos fazer acreditar que existe sim, a possibilidade de isso não ter tão grande como pintamos em nossas mentes, isto é, se temos a humildade de reconhecer que algum problema existe conosco.

Em tempos como esses, onde se acham entorpecentes de qualquer natureza em cada esquina - sendo eles legais ou ilegais, conservar-se são é um ato de coragem, ainda mais que isso, de dignidade para consigo. Passando por inúmeras provações que infringi a mim mesmo, tendo a experiência de perder a confiança daqueles que me cercam, percebo hoje, mesmo que momentaneamente e de modo socialmente aceito, perder a capacidade de se autogerir de acordo com suas crenças e ideais é definitivamente doído, pois tornamo-nos simples marionetes de nossas paixões, somos o verdadeiro homem Hobbesiano, tomado pelos impulsos mais primitivos da condição humana. Entretanto, ao fazer uso de nossas faculdades intelectuais (plenas) não somos as mesmas pessoas, o que nos traz à uma reflexão muito intrincada para ser classificada nesse texto, mas embora nos justifiquemos a fim de tirar proveito do que aconteceu, a conclusão nunca é benéfica a ponto de ficarmos inteiramente felizes conosco.

Minha conclusão, de grande utilidade ou não para quem lê este texto, é que a instrução que constava na entrada do templo de Delfos, na qual se lia "Nosce Te Ipsum"(Conhece-te a ti mesmo), se faz crucial no presente. Devemos sim, antes de tudo, prezar por nós e conhecer nossas aspirações, limites e principalmente, essência; de modo à não sermos repetidamente envenenados por informações e opiniões que, em minha opinião, muitas vezes incutimos em nós sem que percebamos que estas contrariam nossos mais basilares valores. Além disso, olhar para o mundo de forma mais ampla, percebendo que ele não gira para nós, talvez faça nossos problemas diminuírem de tamanho, tornando a fuga, qualquer que seja (só citei aqui as mais graves), menos atraente.

Olhar amplamente para a situação atual, nos faz amadurecer emocionalmente,de forma que possamos desenvolver uma virtude que está em falta hoje, empatia. Para que possamos ter compaixão uns pelos outros e também, de acordo com a lei cármica dos orientais, receber compaixão nas horas que precisamos, se tivermos a coragem de tirarmos a máscara de felicidade desprovida de problemas que somos obrigados a vestir a todo instante.

R.C.

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