terça-feira, 4 de novembro de 2014

Escrevo...



Escrevo , pra ver se me deixo no eixo
pra ver se desse mundo me esqueço
pra ver se alguém que eu conheço
em mim se reconhece
e concorda com algumas ideias aleatórias
que brotam em consonância com as memórias
derivadas das histórias e ideologias teóricas
filosofias de vanguarda
sou também o que vigia a retaguarda

vigia!

pra ver se o mundo se toca do que cria
crianças violentadas pelo veneno da mídia
adolescentes tocando sua vida em monotonia
se adequando a estereótipos que só se veem na telinha
plim plim! moldando sua vida!
e aí, o que cê me diz minha filha?

escrevo, pra ver se algo muda
se alguma alma se salva junto com a minha
como se minha semente fosse também minha salvação
tenho a impressão de que a humanidade precisa de orientação
relembrar do que já foi falado
ao invés pregar na cruz quem prega o amor
e não o ódio do diabo, que sorri com tanto rancor

eu só dou o alerta, santidade pra mim tá longe
to na busca do pão pra seguir adiante

olhar pra si antes de olhar o sapato
olhar pra si antes de olhar pro carro
olhar pra criança sem comida no prato
olhar pra vida sem tanto apego com o tato

sem tanto apego com o bem fungível
acabamos por perder a vida no fogo do dirigível
o ar quente que nosso suor exala nos ônibus
- o chicote do século vinte e um
nos escravos anônimos

cada eleição  cava a sepultura de mais alguns
 pretos periféricos
 trajados de ecko ou marcas afins
que por se enquadrarem no tipo
são alvo do homicídio
triste fim
assistido e ordenado pela classe dominante
esses que só se importam com os diamantes no final
afinal
a conta bancária alta espanta o mal
os muros altos da cidade fazem o seu papel
mostrando o que não se pode ter
sem abrir mão do céu.

escrevo, pra ver se muda alguma coisa
pra que eu não seja mais uma alma agoniada
nessa imagem-ditadura
e talvez se juntem alguns verdadeiros nessa luta
que tenham a visão de que de uma mudança se precisa
e de uma reação pelos poderosos imprevista
o pleito é
por paz na jornada
e igualdade de oportunidades
nessa meritocracia mentirosa que de verdade
 só tem alarde.

R.C.

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