terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lar gelado lar




Pássaros encantam com seu canto matutino, quando o primeiros raios de sol trazem a cor para o que há pouco era uma região sombria. Enquanto essa imensidão de pequenos eventos diários se desenrola, um alguém abre o portão da casa,na mão um par de sapatos sujos e um cigarro na boca.
Sua aparência é no mínimo curiosa, a camisa - de boa costura - está rasgada em algumas partes, sua calça preta está suja de lama, grama e batom. Seu rosto carrega um corte que deixará cicatriz, marcando assim sua testa, sob a forma de uma linha reta. Seria bucólico se não fosse interessante.

Este desconhecido sabe muito bem onde está, onde em anos passados foi o que chamou de "lar". Mas algo no lugar não está reconhecível, será que foi ele quem mudou ou o lugar está diferente?

Pensa consigo, mas está tudo igual, as árvores onde deveriam estar, a casa, desarrumada e atraente, quente, como sempre; gatos por entre os muros; até a placa que ele roubou ainda jaz ali, jogada junto a alguns materiais velhos do seu pai. Ele respira fundo e sente o vento acariciar seus cabelos longos, acompanhado de um leve cheiro de peixe, há muito não se sentia tão bem - a costumeira paz profunda de sua casa toma conta dele, e brota em seu âmago um turbilhão de sentimentos nostálgicos, em alguns minutos já terá o rosto hidratado pelas próprias lágrimas.

- É, deve ser assim que a gente se sente quando volta pra casa. Liberto.

Mas nem tudo é um mar de rosas, e a liberdade em seu lar é apenas uma ilusão, está preso num ritual, há muito estabelecido por ele mesmo. Joga sua mochila no chão e vai até a margem do lago, tira do bolso um pedaço de pão e concomitantemente acende um cigarro, e fuma, e contempla, e alimenta a vida presente naquela maravilhosa água cristalina.

E se afoga, se esvai, transborda, tira a roupa e pula na água gelada da manhã, sem nenhum medo. Se joga como quem pula de bungee jump, não temendo nada. Deixa a água lhe lavar todos os sentimentos, deixando-o vazio como uma concha, pronto para novas experiências e desprovido de amarras. Libertando-se assim da calopsia de paixões passadas e de amores que serão eternos de melancolia e sofrer.

Se renovar é se afogar e ressuscitar , é de lavar a alma.

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