terça-feira, 22 de maio de 2012

Aviso



Uma névoa que encobre o que deveria ser o horizonte, ele senta, procura seu maço no bolso interno do casaco, transforma o ato de acender um cigarro em um ritual, no qual ele se perde em divagações no pequeno interim em que a chama ainda não faz contato com o tabaco, um pequeno tempo para o tempo humano, mas muito tempo pra quem não tem mais, tempo.

Ao puxar a verdadeira razão da sua lenta degeneração para seu pulmão, sente dores e pontadas, talvez em razão do arrependimento que lhe toma depois de quase vinte anos sem pensar no amanhã, talvez pelo fato de ter acabado de saber que a quimioterapia não fizera mais efeito... Seu câncer era terminal, seu pulmão, inválido. Sua vida, cinzas de uma fênix extinta.

Saíra do departamento de oncologia já como um cadáver, com olhares de pena que lhe cercavam, com tapinhas no ombro que em seu interior machucavam, machucavam nem ele sabia o quê, pois morreu no momento em que sentiu um prazo, sem mais a certeza do amanhã para lhe incentivar, sem destino pra depositar sua fé... Decidiu então, com uma lembrança feliz, a única que lhe trazia real felicidade, a única que foi pura, que lhe trouxe felicidade sem exaustão, degradação ou êxtase, apenas uma lembrança, de um velho pé de romã, na encosta do morro onde se criara.

Entrou no carro, não olhou pra trás, não se arrumou, colocou um casaco, não avisou a família, simplesmente partiu... Preferiu aproveitar-se do frio que fazia no morro, na companhia do agente da morte - o cigarro, esperando-a como um filho que espera a mãe buscá-lo na escola, onde aprendeu lições importantes e que quiçá, não fará novamente... Se é que existirá novamente. E assim se foi, vazio - sem nada de importante a compartilhar, careca, quase como veio ao mundo, não fosse por uma cueca, regata, calça, casaco e um câncer que havia originado-se no pulmão, que lhe consumiu o corpo, e agora tomava o que restava, a alma e a vontade de viver.

Será que suicidas conservam sua essência?

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