(Tudo que está aqui, saiu do emaranhado de pensamentos conflituosos que permeiam a minha vida)
domingo, 15 de março de 2015
Suburbano
Entro no ônibus todos os dias nos mesmos horários, o sol bate do lado que eu sento, ponho os fones de ouvido enquanto observo a paisagem e penso em tanta coisa que não penso em nada. São muitas mensagens ouvidas, muitas imagens a serem observadas, existem momentos em que eu só queria fechar meus olhos e contemplar a imensidão do silêncio em meio a toda essa barulheira que é a metrópole. Sou um suburbano, por isso, para chegar no ninho de cobras, na selva de concreto - onde fardas geram tanto temor quanto motoqueiros com touca ninja, tenho que pegar uma ou mais conduções. Conforme a paisagem vai mudando, vou me deparando com a literal concretização das coisas, não existem árvores para onde estou indo, em verdade, não há vida. Só uma sobrevida cheia de asfalto, canos, vidros, como se a cidade grande fosse uma criatura gigante, amorfa, que alimenta-se de si mesma... O cigarro é necessário nessa rotina, é estressante estar sob tantos olhares enviesados nos coletivos e ao mesmo tempo ser tão invisível e insignificante como o resto das pessoas, ás vezes chego a pensar que tudo nessa vida é aleatório, mas acabo por me convencer que não, o que não significa que não fraquejo perante essa perspectiva de vez em quando.
Moro em uma cidade-dormitório, que não oferece cultura, educação ou saúde,enfim, serviços essenciais, pois como já disse, a maioria das pessoas que aqui residem, não vivem aqui. Trabalham, estudam, saem, namoram em São Paulo. Uma vez li que o subúrbio tem todos os problemas da metrópole sem ter nenhuma de suas virtudes, acho que não poderia estar mais certa tal afirmação, onde moro não temos metrô, vias bem pavimentadas, não temos incentivo á cultura, não temos saraus onde os poetas poderiam se expressar, não temos uma integração entre as pessoas da cidade, embora relativamente longe da metrópole, todos vivem no modo operante da cidade, com medo do cara ao lado, estudando tudo e todos, calculando seus passos e suas palavras, a modernidade nos roubou a espontaneidade... Temos medo de ferir o outro, de irritar o outro, de trazer algo inesperado para nós, temos medo até de sermos abraçados por quem não temos "intimidade" - porque afinal nunca sabemos quem é o outro não é? - entretanto, estamos prontos para transar mecanicamente com quem nos possa dar prazer no fim de uma noite, sem se importar se é desconhecida a pessoa que nos faz sexo oral. Somos hoje um grande paradoxo, fala-se de intimidade mas se enviam fotos, filma-se o sexo, falamos de amor mas discriminamos o diferente, traímos a confiança de quem nos é caro ; falamos de justiça, mas matamos por honra ou por uma palavra que mal interpretamos; falamos de democracia mas somos tiranos em nossos próprios lares e igrejas.
Mais do que paradoxo, hoje somos hipocrisia em disparada, e quem tenta fugir se situa na margem, tendo de viver sob as regras que nos aprisionam, nos deixando livres para sermos máquinas. O indignado se situa na margem, tentando fazer algo de útil e de vez em quando acendendo um cigarro enquanto olha seus semelhantes vivendo em torno de uma superficialidade patética, fala-se mal do país mas joga-se lixo na rua, julgamos de todas as formas. A humanidade seria melhor se fosse exterminada, somos animais que se acham racionais, mas na verdade só tendemos a justificar nossas escolhas erradas, enganando a nós mesmos. É nesse raciocínio que eu boto os fones de ouvido e sigo observando a paisagem, esperando para descer no meu ponto e fazer minha parte, tentando trazer algo de calor nessa sociedade friamente desalmada, como uma andorinha levando uma gota de água no bico para apagar a fogueira das vaidades...
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